Da realidade amorosa em tempos do like

Lic. Psych. Martina Burdet Dombald
 

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Nossa época hipermoderna (Lipovetsky, 2006) vive um milagre e uma euforia que derivam do conjunto formado pela informática e as novas tecnologias. Todos estamos conectados, tanto entre nós, como com as máquinas, em um universo onde a avalanche de dados e de imagens constitui um fenômeno novo em uma temporalidade revolucionária, na qual imperam presenteísmo e aceleração.

Vivemos cada vez mais entre diferentes tipos de telas, online-on-life, todos mais ou menos aumentados, ou ainda prolongados por um smartphone que vem ampliar nosso eu-pele físico e psíquico. Hoje, inclusive, a carne pode se misturar ao silicone das love dolls. A sobre-excitação mora nas ruas, o free porn sem controle, o sexo frequentemente fraturado do amor que se tornou um sexo hard ou uma descarga. Sobre este background tece-se o vínculo amoroso ou sua impossibilidade. Escrevi, em outro lugar, “[email protected][1] misturado com arroba, verdadeiro atentado ao uso correto da língua, como metáfora para simbolizar a articulação entre a cultura digital e o afeto, entre o mundo interno do sujeito e a intersubjetividade.  

A partir da adolescência, a escolha amorosa que pressupõe a renúncia aos primeiros objetos parentais da infância, consiste em poder reconhecer e desejar o outro por suas qualidades intrínsecas, sua alteridade, escolha que implica ter também podido renunciar à completude narcísica.  No entanto, hoje vemos surgir com força uma nova ordem amorosa marcada por um enfraquecimento de Eros, enquanto Narciso canta a plenos pulmões, situação na qual o outro tornou-se banal, substituível, sem qualidade, como se ele fosse apenas uma mercadoria. E, por outro lado, um outro / o Outro (simbólico da teoria lacaniana) graças ao qual o primeiro se constrói como sujeito, se vê relegado, negado em favor de um processo de auto engendramento, através do qual o sujeito obtém o prazer imenso de sentir-se criador de si mesmo. Deus por um instante. O mal-estar do inferno narcisista ameaça, enquanto Eros já não abre a possibilidade da experiência do outro em sua alteridade (Kristeva, 1993).

A partir de uma perspectiva psicanalítica freudiana, dizer que Eros perde força em nossa sociedade “líquida” (Bauman, 2003) equivale a sinalizar a fragilização das forças pulsionais de ligação entre pulsões de vida e de morte. Desligamento para Freud (1920), desobjetalização para Green (1986) na qualidade de ataque ao objeto. Se Eros já não abre a possibilidade da experiência do outro em sua alteridade, ameaça do novo o mal-estar do inferno narcisista”. 

O fenômeno em sua vertente mais extrema é representado no Japão pelos “hikikomori”, para os quais o outro é absolutamente varrido de uma vida que se desenvolve exclusivamente online. Seria possível interpretar esse fenômeno como o expoente puro do desejo do não desejo (Aulagnier, 1975), outra forma da pulsão de morte, ou como refúgio psíquico (Steiner, 1995).

Além da patologia extrema dos hikikomori, o mundo hipermoderno mergulha no hiper, na desmedida. A infosfera produz, em uma fração de segundo, uma enorme quantidade de estímulos de tal magnitude que o psiquismo não é capaz de metabolizá-los, fato conceitualizado a partir do enfoque freudiano como traumático, pondo em dificuldade a tarefa psíquica de vinculação. A questão do limite está em questão, pode-se descartar a elaboração dos lutos substituindo o objeto perdido por importantes propostas online, através principalmente de inundações de imagens, como novo e relevante meio de expressão que varre a narrativa (Lyotard J-F, 1979) e contribui também ao apagamento do outro. 

Deve-se destacar que os perfis propostos pelos aplicativos online, algumas vezes via foto, outras vezes acompanhados por algum texto, são tratados por poderosos algoritmos que alguém escolheu por nós, de tal maneira que cada qual pode se encontrar diante do risco de se transformar em um elemento que escolhe outro elemento. Nestes casos, haveria coincidência entre o discurso do capital e da rentabilidade empresarial que pretendem anular nosso desejo, ou “desejar” por nós. Iríamos coincidir em uma objetivação dos afetos sem que cada um realmente soubesse disso claramente.

Não há criação psíquica sem um outro que propicie um prazer inicial, um primeiro olhar no espelho, e também uma primeira frustração suportável que permite a possibilidade de alucinar e de criar representações sem a presença do objeto. O eu é  outro. Hoje é este eco estruturante da subjetividade que se quer apagar. O “Eu” não quer mais o outro. Em seu lugar, nascem ideais que promulgam um prazer sem trégua ou a obtenção de um prazer enorme, produto do que é chamado de auto engendramento (Burdet, op cit). Fenômeno de autocriação delicioso de um si mesmo que se exibe nas redes, mesmo que seja apenas por um segundo, faminto de likes. Aplausos do ego que se torna majestosamente inflado, que tende a se tornar todo-poderoso, e paradoxalmente frágil, às custas dos likes propiciados pelo outro frequentemente desconhecido e reduzido a esta função. Em vez de morrer de amor, hoje se pode morrer de likes. O ego ideal se impõe. 

Like significa “como”, “isso me agrada”. Também é a nova moeda amorosa que nada sente, produzida por gigantes como Facebook. Símbolo de um novo mal-estar enquanto se está passando do discurso à imagem. A libido se retirou do objeto nestes casos e voltou ao eu.

Em ambos os lados, o do sujeito em busca exibicionista, e o do objeto que olha, há uma deterioração do discurso convertido em “peau de chagrin”, espécie de pele reduzida. Cabe destacar que aquilo que é mostrado de si mesmo são imagens construídas, retocadas, escolhidas previamente a partir de um ego, alguns afetos, um inconsciente e alguns ideais. Quer dizer que o que se oferece para a construção do si mesmo (“moi” – o ego) online, difere do eu, “je”, e é uma representação mais próxima do campo imaginário que do campo simbólico, para utilizar uma terminologia lacaniana.

Se bem que o matiz narcisista do mecanismo esteja claro, ele precisa de uma matização com relação à teoria do narcisismo clássico definida por Freud (1914), ao retomar o mito ovidiano no qual Narciso se enamora de sua imagem. Cada um, online, se olha na imagem que o reflete nas redes, a partir de uma imagem do sujeito previamente escolhida com fins sociais, e quiçá na vinculação deste fenômeno com questões recentes que emergem como o poliamor e as polipertinências de todo tipo.  
 
[1]Burdet, M. (2018). Amar en tiempos de Internet. ¿Me [email protected] o me follow?Underbau
 
Referências
Aulagnier, P. (1975). La violence de l´interprétation. Paris: PUF.
Bauman, Z. (2003). Titre original : Liquid Love. Oxford: Blackwell Publishing Ltd. L´amour liquide. De la fragilité des liens ente les hommes. Paris: Hachette Littératures
Freud, S. (1920). Más allá del principio del placer.
Green, A. (1986). Primer Simposio de la Federación Europea de Psicoanálisis. Marsella. La pulsión de mort. Paris: PUF. Pulsión de muerte, narcisismo negativo, función desobjetalizante. En La pulsión de muerte. Madrid: Amorrortu editores (1989).
Godart, E. (2018). La psychanalyse va-t-elle disparaître? Paris: Albin Michel.
Kristeva, J. (1993). Les nouvelles maladies de l´âme. Paris: Fayard.
Lipovetsky, G. (2006). Le bonheur paradoxal. Essai sur la société de l´hyperconsommation, NRF Essais; Folio Essais 256.
Lyotard, J.F. (1979). La condition postmoderne. Paris: Les éditions de Minuit.
Steiner, J.  (2013). Refugios psíquicos. APM. Biblioteca Nueva. Do original publicado em 1995 sob o título: Psychic Retreats. London. Routledge.

Traduzido por Marilei Jorge
 

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