Simpósio dos 100 anos da Sociedade Suíça de psicanálise: argumento

Swiss Society of Psychoanalysis
 

0
Comments
311
Read

O centenário de nossa sociedade é a ocasião de uma festa e de uma celebração simbólicas: a de uma existência e a de um percurso. Cem anos é a ocasião de questionar uma história, uma memória, mas também uma tradição, e de voltar ao passado, questionando as diferentes figuras através das quais este passado existiu e existe ainda hoje.

A psicanálise, desde seu início, mantém com seu itinerário, com sua história e, de um modo geral, com a História, uma relação difícil e ambivalente. Freud procurou instaurar uma nova ciência, uma nova prática e uma nova tradição e, ao construí-las, ele propôs sua representação histórica. É possível dizer que ele não desejava somente fazer ciência, mas também fazer história (cf. seu texto de 1914 Por uma história do movimento psicanalítico). A psicanálise freudiana mantém, assim, desde suas origens e suas primeiras formulações, uma interação singular com ela mesma e com seu passado, seus arquivos, suas marcas: ao se criar, ela se dota de uma história autorizada, embora ela não tivesse ainda sido produzida. A polêmica em torno da abertura de seus arquivos é testemunha de sua relação difícil com a análise histórica.

A psicanálise foi construída com paixão, audácia, dilaceramento e, às vezes, indo de um lado para o outro, em uma bifurcação histórica, cultural e política que envolve tanto Freud, quanto seus adeptos ou seus opositores, tanto as disciplinas, quanto os dilemas, as alianças ou as guerras. Sua história foi, com frequência, escrita internamente pelos próprios psicanalistas (E.Jones, por exemplo), particularmente porque as dimensões históricas estão no centro do trabalho analítico e, portanto, de seu método e de sua especificidade científica. Uma espécie de história oficial emergiu daí, elogiosa ou militante, que valorizava, sob a forma de biografias, até mesmo, às vezes, hagiográficas, as figuras dos homens (com menos frequência mulheres) que trabalharam pelo desenvolvimento da psicanálise.

Sair desse círculo autorreferencial implicava descentralizar o olhar dos particularismos, e questionar de modo pluridisciplinar a história institucional da psicanálise, a história da constituição das filiações e das tradições ortodoxas e heterodoxas, as memórias das escolas e dos grupos que coexistem no mundo e na Suíça de maneira pacífica ou conflitual. Foi o trabalho realizado, há cerca de meio século, por Henri Ellenberger, psiquiatra canadense de origem suíça, analisado por O. Pfister, que questionou com felicidade os contextos plurais e contraditórios da emergência e da afirmação psicanalítica, investigando suas fontes e seus arquivos controversos, além das narrativas memoriais e das construções ortodoxas. Ao integrar, daí em diante, inúmeros pesquisadores fora dos ambientes específicos da psicanálise, esta perspectiva reposiciona a história das ideias psicanalíticas em seus contextos intelectuais, sociais e políticos e coloca em evidência a psicanálise não somente como um sistema de ideias, mas como uma instituição e um conjunto de práticas contextualizadas.

A Suíça, em sua posição particular de centro do intercâmbio europeu, foi um laboratório dos desafios apresentados à psicanálise em sua história: multicultural, multilíngue, zelosa de suas particularidades cantonais, em equilíbrio precário e dinâmico entre suas fronteiras e sua composição mista. Os numerosos atores que balizaram seu percurso, trouxeram igualmente sua contribuição à reescrita viva desta história ainda em construção.

A pré-história da SSPsa se baseia no encontro entre Freud, o diretor do Burghölzli Eugen Bleuler e C. G. Jung, e no interesse de vários suíços pelos trabalhos sobre o inconsciente, especialmente pelos conceitos freudianos (T. Flournoy, E. Claparède em Genebra, etc.). Essas premissas ocorreram em um clima dinâmico e conduziram à fundação da "Gesellschaft für Freudsche Forschungen" (1907, Bleuler), depois à fundação do "Ortsgruppe Zürich" da "Internationale Psychoanalytischen Vereinigung" (IPV/IPA) (1910, Binswanger) e à eleição de Jung como primeiro presidente da IPA em 1910.

Após a eclosão do conflito entre Freud e Jung (1914), os suíços que não seguiram Jung, fundaram a Sociedade Suíça de psicanálise (SSPsa) (E. Oberholzer, M. Gincburg, O. Pfister, H. Rorschach, H. Zulliger, etc.) em Zurique, em 21 de março de 1919 – sob o olhar cético dos representantes da IPA presentes (E. Jones, H. Sachs, O. Rank). A Sociedade psicanalítica de Genebra (E. Claparède, R. De Saussure, C. Odier, H. Flournoy, J. Piaget, S. Spielrein, etc.) foi criada em Genebra em 1920, sem o reconhecimento da IPA e teve uma vida curta. Alguns suíços de língua francesa juntaram-se à SSPsa (R. De Saussure, C. Odier, H. Flournoy). 

Os nove primeiros anos da SSPsa (sob a direção de E. Oberholzer, 1919 – 1928) foram cheios de conflitos. Após a saída de E. Oberholzer, que tinha fundado com outros médicos uma “Sociedade Suíça de Psicanálise Médica”, no momento de maior debate sobre a análise leiga, as relações com a IPA se descontraíram sob a presidência de P. Sarasin. Esta evolução levou a IPA a confiar à Sociedade suíça os Congressos Internacionais de 1934 (Lucerna) e 1949 (Zurique; o primeiro após a segunda guerra mundial, o holocausto e a morte de Freud).

Em 1977, em um conflito político relativo à formação, o “Seminário psicanalítico de Zurique” foi excluído da SSPsa. A Sociedade reúne hoje vários centros de formação regionais em diferentes partes do país e de suas regiões linguísticas. 

Mais do que uma comemoração retrospectiva, escolhemos abrir o diálogo entre as questões que são levantadas pela história da psicanálise e suas figuras singulares na Suíça. Nós quisemos articular este jubileu de 2019 em torno de dois temas: as fronteiras e as heranças.

O primeiro dia é dedicado à questão da fronteira que remete ao dilema do limite: liberar as fronteiras e manter sua identidade (a Suíça, centro de intercâmbio).

O segundo dia se articula em torno da herança que esclarece tanto a cultura da transmissão quanto sua rejeição (“Os meninos diabólicos”). Quer esta herança seja a que se recebe ou o que se lega.

No movimento de historiadores que ao mesmo tempo situam a psicanálise no corpo dos saberes e estudam seu potencial criador, suas questões, seus limites, nós convidamos dois conferencistas principais (G. Makari e E. Falzeder), que serão discutidos e cujos argumentos propostos serão postos em evidência nas mesas redondas que reúnem especialistas de diferentes horizontes da cena suíça e europeia.

É para esse diálogo que os estamos convidando.
 
Em nome da Comissão do Centenário da SSPsa
Lito Panayotopoulos,  abril de 2019
 
Tradução Marilei Jorge
 

Star Rating

12345
Current rating: 0 (1 ratings)

Comments

*You must be logged in with your IPA login to leave a comment.