Transmissão Intergeracional da Esperança: O Legado do Trauma diante da Covid 19

Galit Atlas
 

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No decorrer do último mês, meus pacientes, descendentes de segunda e terceira geração de sobreviventes do Holocausto, têm trazido para a terapia sonhos intensos e associações que aludem ao trauma familiar. Atualmente, mais do que nunca, os pacientes estão recordando as histórias de sobrevivência de seus antepassados, imaginando sua desolação e desamparo, contando suas perdas, desta vez coloridas por um momento presente muito particular.

No entanto, neste momento, muitos de nós estamos mais conscientes do que nunca do legado do trauma como recurso, não apenas como fardo psicológico.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, a psicanálise começou a examinar a forma inconsciente de transmissão do trauma, de uma geração a outra, como herança emocional. Muitos analistas eram judeus fugidos da Europa. Seus pacientes eram sobreviventes do Holocausto e, mais tarde, na prole desses sobreviventes do trauma, as crianças apresentaram algum traço inconsciente da dor dos pais.

Após a guerra, Maria Torok, analista nascida na Hungria e que se mudou para Paris, ficou conhecida por seu trabalho com sobreviventes do Holocausto. Em colaboração com Nicolas Abraham e desenvolvendo as ideias de Ferenczi sobre trauma, os dois analistas identificaram o aspecto transgeracional do trauma e introduziram a teoria do fantasma.

‘O que assombra não são os mortos, mas as lacunas que os segredos dos outros deixam em nós’ (p. 171), eles escreveram em 1978, referindo-se aos segredos intergeracionais e experiências não processadas que, com muita frequência, não têm voz ou imagem associadas a elas, mas que ainda assim surgem em nossas mentes. Torok e Abraham ressaltaram de que modo transportamos material emocional pertencente a nossos pais e avós, conservando perdas que eles nunca articularam plenamente. Sentimos esses traumas ainda que não tenhamos conhecimento consciente deles. Antigos segredos de família vivem dentro de nós.

A partir da década de 1970, novas pesquisas empíricas analisaram a alteração de genes em descendentes de sobreviventes de trauma. Essa pesquisa em epigenética estudou as influências não genéticas e a modificação da expressão gênica bem como examinou as maneiras pelas quais o ambiente, especialmente o trauma, pode deixar uma marca química nos genes de uma pessoa, marca essa repassada de geração em geração. Eles descobriram que os filhos saudáveis de sobreviventes do Holocausto, de veteranos de guerra e de pessoas cujos pais sofreram traumas graves tendiam a apresentar sintomas da Síndrome de Estresse Pós-Traumático após acontecimentos traumáticos ou mesmo após testemunharem um incidente interpessoal violento (Ver a pesquisa de Rachel Yehuda e sua equipe da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai). 

Devido ao enfoque no inconsciente, a psicanálise está familiarizada com as formas de a experiência traumática invadir a psique da geração seguinte (Ver o artigo sobre fantasma de Harris, Klebanoff e Kalb). As pessoas que amamos, e as que nos criaram, vivem dentro de nós, sentimos sua dor emocional, sonhamos suas memórias, conhecemos o que não se transmitiu explicitamente para nós e isso molda nossas vidas de maneira que nem sempre reconhecemos. Na análise, enfocamos com frequência as partes de nós mantidas em cativeiro pelos segredos do passado, por isso é especialmente interessante perceber que o trauma intergeracional também pode servir como fonte de resiliência. 

Muitos terapeutas têm observado que seus pacientes mais ansiosos estão lidando melhor com a crise atual do que os que não estavam preocupados com o ‘fim do mundo’. Para esses pacientes, a realidade externa revelou a interna; eles estavam com medo de uma potencial catástrofe, mas, agora, paradoxalmente sentem-se menos ansiosos. Para eles, a crise oculta, que eles sentiam sempre que chegaria, finalmente chegou e, de certo modo, para esses pacientes é mais fácil lidar com a crise real presente em contraposição à suposta crise constantemente aguardada.

Mas quando se trata de trauma herdado, há outros fatores em funcionamento. 

Por meio da identificação com as gerações anteriores integramos passado, presente e futuro, não apenas como uma sequência contínua de trauma como também de sobrevivência. A memória do passado agora se encena em atos e sentimentos simbólicos cotidianos. Por exemplo, para muitos filhos de sobreviventes, ficar em quarentena remete à lembrança dos pais escondidos durante o Holocausto. Alguns dos meus pacientes mencionam as prateleiras vazias do supermercado e de que modo isso ativa sua identificação com a busca de comida de seus ancestrais durante a guerra. São maneiras de viver a história dos ancestrais, só que dessa vez sabendo que o fim pode levar à sobrevivência. 

Portanto, a transmissão intergeracional não é só de trauma e desespero, mas também de resiliência e esperança, porque a existência do paciente em si evidencia a sobrevivência da sua família e o fato de que a pessoa pode ter um futuro. É um modo de processar e recordar a libertação passada e também olhar adiante e antecipar a futura redenção. Reviver a dor de nossos antepassados nos permite aludir ao passado traumático como um jeito de imaginar um futuro possível, uma trajetória do caos à ordem, do desamparo à possibilidade de ação e da destruição à recriação.

Referências
Harris, A., Klebanoff, S., & Kalb, M. (Eds.). (2016). Ghosts in the Consulting Room: Echoes of Trauma in Psychoanalysis. London: Routledge.
Harris, A., Klebanoff, S., & Kalb, M. (2017). Demons in the Consulting Room: Echoes of Genocide, Slavery and Extreme Trauma in Psychoanalytic Practice. London: Routledge.
Torok, M. & Abraham, N. (1978). The Shell and the Kernel: Renewals of Psychoanalysis. Chicago: University of Chicago Press. 
Yehuda , R., Schmeidler, J., Wainberg, M., Binder-Brynes, K. & Duvdevani, T. (1998). Vulnerability to posttraumatic stress disorder in adult offspring of holocaust survivors. Amer. J. Psychiat. 155:1163-1171.

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 

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