É a psicanálise, idiota?

Dra. Laura Orsi
 

É a psicanálise, idiota? A psicanálise é essencial. Mas como? Na atualidade, nas redes e na comunidade, para além da zona de conforto do consultório e da teoria.

0
Comments
489
Read

Há que poder imaginar algo distinto do que existe para poder querer,
e há que querer algo distinto do que existe para liberar a imaginação

Cornelius Castoriadis
É a psicanálise, idiota? Origina-se na famosa frase de James Carville, assessor de Bill Clinton na exitosa campanha que o levou à presidência: ‘É a economia, idiota!’ A expressão se popularizou e foi trending topic no discurso político durante anos, a tal ponto que sua estrutura tem sido utilizada para colocar em destaque o foco da ação.

Com esta frase, convido-os a refletir a respeito das diferentes formas que se pode teorizar a partir da psicanálise como instrumento de pensamento. Analisar a incidência dos problemas sociais na vida cultural dos seres individuais, nos grupos e na comunidade.

Levemos em conta que, enquanto é uma tradição transmitir a psicanálise entre colegas, divulgar o conhecimento psicanalítico sempre provoca resistências. É compreensível, já que obriga a sair da zona de conforto: a intimidade do consultório ou a segurança de falar com base na teoria. 

A Associação Psicanalítica Argentina criou em 2007 o Departamento de Psicanálise e Sociedade, com o objetivo de motivar os membros da instituição à participação e ao intercâmbio ‘social’. Converteu-se em um espaço em franco crescimento, símbolo do trabalho na comunidade durante muitos anos, com os colegas participando, seja em oficinas ou em grupos, de jornadas em escolas e em diferentes esferas; e também na interface com a psiquiatria. Esse ano foi publicado nosso primeiro livro: ‘Psicoanálisis y Sociedad,Teorías y Prácticas ‘ (Moise & Orsi et al, 2007).

No ano 2017 se desenvolve ‘uma IPA para todos’ um enfoque da psicanálise da Associação Psicanalítica Internacional na comunidade, em sintonia com nossa maneira de pensar. Estas ideias se viram refletidas em nosso segundo livro ‘Psicoanálisis y Sociedad, Nuevos Paradigmas en Lo Social’. Hoje somamos às edições em papel, a edição digital (Orsi, 2017).

Por minha parte, faz anos que trabalho para fortalecer o papel que representa o psicanalista nos meios de comunicação de massa, na imprensa gráfica, e nas redes sociais, blogs, webs, Facebook, Instagram, etc. Comprovo, mais de uma vez, o impacto que tais participações podem ter na instituição, na cultura e na sociedade em que o psicanalista interage, sempre procurando atingir o público sem cair na banalização da teoria. Este impacto se multiplica no enquadre analítico com seus pacientes, sobretudo na atualidade, devido ao uso intensivo da tecnologia como consequência da pandemia. Abordam-se temas como as modalidades de difusão da saúde mental através de notícias curtas, notas, entrevistas, artigos, colunas e blogs. É o ‘efeito dominó’ da difusão; transferências e contratransferências com os jornalistas, com as mídias e, inclusive com os pacientes, quando seu analista participa em mídias de massa. O mundo digital afetou nossa maneira de nos relacionar, viver, descobrir, contatar, aprender, amar e trabalhar. Os vínculos sociais, antes submetidos às limitações do entorno físico, hoje podem tecer-se com um grande predomínio de imagens que inclusive substituem as palavras.

Estes espaços virtuais podem converter-se em um terreno fértil para o estudo, a construção e difusão do conhecimento e do modo de interagir com nossos pacientes. É necessário refletir profundamente acerca da maneira como entendemos a intimidade nos tempos que correm, as transformações na clínica, produto das mudanças de época e, ao mesmo tempo, dos avanços da teoria e da técnica psicanalítica, ao modificar inclusive o enfoque dos tratamentos psicanalíticos. 

Em épocas de pandemia e de predomínio de Zoom, a imagem de um analista não afetado por seu contexto pertence ao passado. Quais são as lógicas que essas novas modalidades impõem? Como essas mudanças afetam a técnica psicanalítica, a mente, o pensamento, os afetos e nossos consultórios? Como usar as novas ferramentas para comunicar e difundir a psicanálise sem desvirtuá-la? A psicanálise tem muito o que dizer sobre este assunto e são inúmeros os trabalhos que se publicam sobre o tema.

A transdisciplina é indispensável para pensar estas questões e, mais adiante, comentarei a tarefa com um grupo Balint, a título de exemplo.

É imprescindível nos abrirmos para um mundo em transformação sem perder nossa essência. Não levar em conta as mídias digitais ou utilizá-las com linguagens e tempos característicos da cultura pré-digital é perder a oportunidade para que a divulgação da psicanálise chegue a seus destinatários.

Fossos Digitais
Sabe-se que o fosso digital deixa as mulheres em minoria e quase ausentes da criação de produtos tecnológicos e da direção de empresas desse campo.

No caso da produção de informação, é importante considerar a baixa participação das mulheres nas redações das mídias e nos cargos de responsabilidade editorial tanto quanto no conjunto da sociedade.

O fosso digital intensifica as diferenças sociais e prejudica aqueles que não têm os elementos acima mencionados. Intensifica as desigualdades sociais de raça, classe e gênero. Na reunião do WOMEN 20, se fez alusão ao Fórum de gênero do G-20, alertando sobre as dificuldades para ter acesso a um uso estratégico da tecnologia.

O tratamento da violência e o feminicídio nas mídias e nas redes
Os estudos feministas se preocupam há décadas com o papel dos meios de comunicação de massa na produção e reprodução de estereótipos de gênero e da violência de gênero. Os meios de comunicação têm um papel fundamental em tais construções, como, por exemplo, linguagens e narrativas que utilizam para o consumo das audiências.

A violência contra as mulheres, em particular o feminicídio, sua forma mais grave, se deve a múltiplos fatores, tais como as construções sociais e a violência simbólica que existe em torno do que significa ser homem e ser mulher nas diversas sociedades. O crescente número dos homicídios de mulheres, assim como a violência de gênero ganharam maior atenção social e mediática nas últimas décadas e são difundidos como nunca. Todavia, a quantidade de casos não diminui, mas se incrementa de forma alarmante (Orsi, 2019).

Muitas mulheres se organizaram através das redes para falar unicamente sobre violência de gênero. Depois, o intercâmbio virtual transcendeu as redes e as mídias e tomou forma de manifestação de rua: a marcha do # Nem um a menos, de 03 de junho de 2015 em Buenos Aires, Argentina, se repetiu em outros lugares da América Latina e também na Europa, como as campanhas ‘Me too’, Times Up, e ‘Balance ton Porc’, destacando a importância da denúncia.

Em épocas de quarentena e pandemia se produz um grande aumento de violências e feminicídios devido à convivência com o agressor, inclusive de meninos e meninas, segundo informa a Unicef, entidade que cria campanhas de prevenção e conscientização neste momento traumatogênico. 

Os crimes são cada vez mais violentos e as mulheres continuam sendo assassinadas, embora muitos atos de violência sejam denunciados. Os feminicídios íntimos são geralmente o corolário de violência prévia exercida sobre a mulher por seus parceiros ou ex-parceiros, quer dizer, não constituem incidentes violentos isolados. Isto reforça o papel que podem ter as políticas de atenção à violência de gênero nas relações de casais, na proteção das mulheres e na prevenção de feminicídios.

Parece que uma ação mais efetiva é necessária. Há uma defasagem entre a ação e o que está escrito nas leis. Há falhas nas campanhas que se dedicam à prevenção. É interessante analisar as conexões entre os homicídios de mulheres por questões de gênero e sua cobertura mediática, em especial, em países da América Latina.

Diferentes culturas televisivas podem oferecer narrativas distintas e propor outras visões da sociedade. Assim, a forma narrativa das notícias varia segundo os países e suas culturas. Na América Latina, ela apresenta um caráter geralmente mais sensacionalista. Sendo assim, segundo o que declarou a OMS, temos uma pandemia da informação ou ‘infodemia’, ou seja, o surto de COVID-19 e a resposta correspondente têm sido acompanhados de uma infodemia massiva.  

Estes enfoques mantém uma desconexão crítica entre os feminicídios, apresentados como casos isolados e individuais e a violência doméstica como um problema social mais amplo.

A comunicação pode gerar um efeito copy-cat mencionado por diversos informes? O efeito copy-cat permite identificar um certo efeito de imitação, de identificação e de compulsão à repetição quando se compara os dias em que se publicam notícias de casos de feminicídios com os dias em que não há publicações, concluindo que a presença de feminicídios íntimos nas notícias de televisão parece aumentar a possibilidade de mortes dessa natureza.

Neste panorama é importante destacar a tarefa da psicanálise na comunidade de diferentes maneiras: na prevenção e na contenção,

A psicanálise: uma ferramenta para a prevenção
Vou comentar, como exemplo, o dispositivo que utilizei, a pedido da Diretoria Nacional de Mediação, para prevenir o burnout dentro do grupo das profissionais que realizam mediação penitenciária. Escolhi trabalhar com o dispositivo ‘Grupo Balint’ porque consiste em um grupo de reflexão que atua como suporte para seus integrantes. Ele cumpre uma função preventiva a respeito das decisões da organização e da saúde de seus membros e no cuidado com possíveis situações críticas. Este dispositivo me permitiu abordar, com as profissionais, o conflito próprio da tarefa que realizam. Uma tarefa que gera ansiedades, desgaste, descontrole, paralisia e sintomas psicossomáticos. 

Deste modo, propicia-se um espaço de escuta e de interação grupal que ajuda a resolver, elaborar e redimensionar as problemáticas que surgem quando não se consegue superá-las individualmente, modificando o enquadre de abordagem e, se necessário, seu ambiente de trabalho.

Além disso, escolhi este dispositivo porque a situação de crise social, econômica, política, as condições de trabalho, o desemprego e o imprevisto da situação de trabalho afetam a subjetividade e são fonte de sofrimento físico e psíquico. Isto se aprofunda, ainda mais, quando a equipe atua em ambiente penitenciário. Trabalhar, com a equipe, os riscos, obstáculos, frustrações, impotência e outras dificuldades que encontravam na tarefa cotidiana, mas também ressaltar os êxitos, quando conseguem realizar suas propostas, foi muito importante para a equipe. Por outro lado, também foi muito importante poder tomar consciência da necessidade de manter uma distância útil, pertinente, que poderia ajudá-las, na medida do possível, a não expor o corpo de forma excessiva e eventualmente internalizar o sofrimento, outra situação similar que as impediria de realizar a tarefa, sem deixar de tornar essa tarefa natural para poder suportá-la, considerando que, em linhas gerais, ela se desenvolve adequadamente (Orsi, 2018).

Foi muito necessário construir um vínculo de confiança, com o objetivo de superar os inconvenientes que se apresentavam.

Poder comentar as dificuldades que surgiam nos estabelecimentos penitenciários, na revinculação, na readaptação social, as aliviava ao tornar visível e trabalhar o material que ia surgindo.

Devido ao bom resultado desta experiência, com avaliações anuais durante um período de mais de quatro anos, fui convocada a participar de ‘Cuidar dos que cuidam em tempos de Covid-19’, uma experiência de trabalho de grupo da APA, de apoio ao pessoal da saúde em pandemia, em uma prestigiosa instituição mista, geriátrica e de reabilitação.

Finalmente, estas experiências me levam a refletir, com Charles Brunch, que: ‘a violência sexual, racial, de gênero e outras formas de discriminação na cultura não podem ser eliminadas sem mudar a cultura’ (Plascencia Pacheco, 2017).

Referências
Brunch, ​C. (2017). Plascencia Pacheco N. Proyecto de Ley girado a la Comisión de Igualdad de Género de la Cámara de Diputados de Méjico. Gaceta de la Comisión Permanente del Senado, 6 Agosto 2017. https://www.senado.gob.mx/64/gaceta_comision_permanente/documento/74534
Gill, I. (2014). Es la política, estúpido. El Mundo, 7 June 2014. https://www.elmundo.es/opinion/2014/07/06/53b7db0b22601d7c028b4574.html
Castoriadis, C. ‘Psicoanálisis, proyecto y elucidación’. https://es.scribd.com/document/427268297/El-Estado-Del-Sujeto-Hoy      
Moise C & Orsi, L. et. al (2007). Psicoanalisis y Sociedad. Teorias y Practicas. Buenos Aires:  Ediciones Continente.
Orsi, L. (2017). Presentación en ‘Psicoanálisis y Sociedad Nuevos Paradigmas en Lo Social’. Buenos Aires: Editorial Dunken. 
Orsi, L. (2019). Psychoanalysis, Law, and Society. London: Routledge.
Orsi, L. (2018). Un dispositivo útil para prevenir el desgaste Burnout en los profesionales que realizan mediación en ámbitos penitenciarios. En Congreso Mundial de Mediación y Cultura de la Paz. Bs As.

Traduzido por Marilei Jorge
 

Mais artigos de:
 


Star Rating

12345
Current rating: 0 (0 ratings)

Comments

*You must be logged in with your IPA login to leave a comment.