Usa-se o termo “colapso” de maneira imprecisa para fazer referência ao colapso do funcionamento, o colapso do contato com objetos do mundo externo. Existem na psicanálise, contudo, outras formas de imaginar esse colapso. Quando a dor supera o limiar de tolerância, o ego parece retirar-se e rejeitar o mundo. Algo que não necessariamente sugere fragilidade. Na verdade, Winnicott argumentou que o paciente que se mantém coeso pela mobilização de um “falso
self”, erigindo uma crosta ao redor de si, busca viver de maneira autêntica e participar dos incertos caprichos da vida. Nesse caso, ele introduz um novo ponto de vista a partir do qual podemos considerar o colapso como decorrência do desejo de viver espontaneamente.
De modo profundo, Winnicott observa que “o medo clínico do colapso é o medo de um colapso já vivido. É o medo da agonia original que causou a organização defensiva que o paciente apresenta como síndrome da doença. A ideia freudiana de
nachträglichkeit(a ideia de que a memória toma forma a partir do presente) fica incandescente aqui na medida em que Winnicott sobrepõe o passado ao presente.
O trabalho de Alvarez sobre os níveis de funcionamento analítico dá indícios do local em que o paciente se encontra em cada momento específico. Sua estratificação a respeito do funcionamento psíquico se amplia e localiza diferentes tipos de colapso. Há o
selffrágil que se fragmenta, o que pode ser apenas o estágio final. Mas para a pessoa predominantemente autista, o colapso depressivo leva ao contato maior com seus sentimentos, bem como com a dor que possa ter causado a outros. Assim, o termo “colapso” pode indicar não só fragilidade como também tendência ao sofrimento, enquanto a luta/fuga da dor pode indicar falta de elasticidade psíquica.
Na verdade, a situação mais refratária para mim é o paciente que caiu no delírio e na onipotência sem poder ser trazido de volta. Ao contrário da ideia popular, é possível dizer que quem recusa o colapso é o paciente que não tem capacidade para a verdade.
Isso me faz recordar a paciente J, na faixa dos quarenta anos que, tanto do ponto de vista financeiro quanto de outras maneiras, dependia da sua família, mas parecia ter adotado uma fachada maníaca permanente. Vinha apenas porque a “irmã era uma cadela histérica”. A família queria apenas delegar suas obrigações, mas J “não seria feita de idiota ”. Ela disse que não viria às sessões, mas pegaria com eles o dinheiro do pagamento. Ela se “ligara”, na internet obscura [dark internet], a traficantes que comprariam coisas ilegais dela, ganharia bilhões e viveria em sua própria ilha. Poderia comprar um parceiro e conseguiria mães de aluguel para ter bebês. “Tenho tudo resolvido”. O trabalho com J não durou. O colapso só poderia ser um holocausto, portanto, assim como o Mamon de Milton, ela se refugiava em ambiguidades. Mamon consola os anjos caídos por sua perda do céu dizendo que deveriam ser gratos, pois no inferno são “livres, sem precisar prestar contas a ninguém, preferindo a dura liberdade à fácil escravidão da pompa servil”.
Grande parte disso pode ou não ser comunicável por meio do conteúdo verbal manifesto da comunicação, mas pode encontrar-se na sintaxe, no uso dos tempos verbais, no vértice da locução e no próprio tom de voz. A paciente mantém distância do colapso ao subestimá-lo? Às vezes junta-se ao analista e olha com desconfiança para algo que aconteceu há muito tempo. Será a distância do colapso longínqua demais para percorrermos?
O que na sintaxe nos conta que há um colapso rondando? Foi há muito tempo? Ou acontece aqui e agora? A resposta é capitular ou fugir. Este artigo sucinto – usando a poesia – localiza diferentes posturas para um colapso e examina a sintaxe da relação com a dor e com os objetos internos.
1. Mantendo à distância
Nesse caso, por exemplo, está Emily Dickinson que pode estar descrevendo um colapso.
It Was Not Death
When everything that ticked - has stopped -
And space stares - all around -
Or Grisly frosts - first Autumn morns,
Repeal the Beating Ground -
But most, like Chaos - Stopless - cool -
Without a Chance, or spar -
Or even a Report of Land -
To justify - Despair.
Não foi a Morte [1]
Quando tudo que sinalizou – parou -
E o espaço olha – tudo ao redor
Ou pavoroso congela – primeiras manhãs de outono
Anulam o Solo Derrotado
Mas principal, como Caos – Incessante - frio
Sem Chance, ou estaca
Ou mesmo Certificado de Terra
Para validar - Desespero
Sem dúvida é o panorama de um colapso do contato com a realidade, ainda mais profundo quando os objetos internos (aqui encarnados como tempo e espaço), que nos mantêm no lugar, perdem seu significado. Essas duas dimensões que nos ancoram, perdem elasticidade – o tempo atrofia e os espaços se expandem. Novamente o solo (ou mãe) não é mais visível, abatido pela invasão de objetos hostis como o gelo que impossibilita deter o caos. Os objetos hostis dominam os bons. Mas esse poema parece ter sido escrito depois – quando o caos dá acesso a uma memória que organiza a experiência e mapeia seus contornos. A acuidade da descrição, a precisão, evidencia o desejo da narradora de manter distância da dor. É difícil dizer se é uma lembrança do passado ou se é parte não psicótica descrevendo a parte psicótica.
Em
Meço Cada Sofrimento Encontrado (I Measure Every Grief I Meet) a narradora compara com sutileza seu sofrimento ao dos outros. É o reconhecimento do sofrimento humano mas existe possibilidade de ironia espirituosa, quando ela não apenas olha mas olha com “olhos rigorosos, penetrantes”, como se também houvesse certa superioridade antagônica:
I measure every Grief I meet
With narrow, probing Eyes -
I wonder if It weighs like Mine -
Or has an Easier size…
Meço cada Sofrimento encontrado
Com olhos rigorosos, penetrantes
Questiono se pesa como o meu
Ou é mais fácil em tamanho
Dickinson também ridiculariza seu sofrimento ao compará-lo ao de Cristo por meio da menção ao Calvário:
A piercing Comfort it affords
In passing Calvary -
To note the fashions - of the Cross -
And how they’re mostly worn -
Still fascinated to presume
That Some are like My Own
Conforto penetrante proporciona
Passar pelo Calvário
Para observar as modas – da Cruz
De como são mais usadas
Ainda fascinada por presumir
Algumas semelhantes às Minhas
Há um jogo de palavras lúdico na palavra moda (fashions) – tanto no estilo popular quanto na maneira de fazer algo. Que tipos de emblemas de sofrimento existem e como as pessoas os exibem? É possível especular se algum deles assemelha-se ou não ao dela. Essa restrição a equilibra muito. Somos convidados a ver seus gestos espirituosos, mas nos mantemos firmemente fora do colapso. A distância da dor se estabelece por meio da ludicidade e da exatidão. O equilíbrio entre querer falar de dor e manter distância do lugar do sofrimento, contribui para uma tensão que indica fragilidade, mais do que as palavras em si ao buscarem continuidade.
2. Lutando contra
Ao contrário de Dickinson, que escreve de certa distância, a narradora de Silvia Plath em Tulipas [Tulips] tenta excindir sua loucura projetando-a em flores que adquirem a forma de “objeto bizarro”. Aqui as tulipas são usadas como um louco duplo quando ela descreve a hospitalização após um colapso:
The tulips are too excitable, it is winter here.
Look how white everything is, how quiet, how snowed-in.
I am learning peacefulness, lying by myself quietly
As the light lies on these white walls, this bed, these hands.
Tulipas são excitáveis demais, é inverno aqui, [2]
Vê como tudo está branco, tão silencioso, coberto de neve.
Aprendo a paz, deitada sozinha em silêncio
Enquanto a luz se espalha nessas paredes brancas, nesta cama, nestas mãos.
Parece ter som de paz, exceto que se parece mais com a submissão à rotina médica, encarcerada dentro do bem-estar.
I have let things slip, a thirty-year-old cargo boat
stubbornly hanging on to my name and address.
…the water went over my head.
I am a nun now, I have never been so pure.
Deixei coisas escaparem, navio de carga com trinta anos
Teimosamente se prendendo a meu nome e endereço
... a água cobrir minha cabeça.
Sou uma freira agora, nunca fui tão pura.
Mas não é um estado de calma; objetos desorganizados não serão contidos.
The tulips are too red in the first place, they hurt me.
Their redness talks to my wound, it corresponds.
Tulipas são vermelhas demais, me machucam
Sua vermelhidão conversa com minha ferida, elas combinam.
Ela facilmente se perturba com essas flores vermelhas sanguíneas a partir de cuja perspectiva é possível:
… see myself, flat, ridiculous, a cut-paper shadow
…I have wanted to efface myself.
The vivid tulips eat my oxygen.
... E me vejo, estendida, ridícula, uma silhueta de papel
... E não tenho face, eu que tanto quis me apagar
As tulipas vívidas devoram meu oxigênio
Aqui há um dualismo que lembra o drama maniqueísta. Muito semelhante ao conflito entre escuro e claro, as partes psicótica e não psicótica estão em combate mortal. A parte psicótica está explodindo a partir de um continente inadequado (hospital). Na medida em que a narradora tenta distanciar-se da psicose que ameaça dominar sua mente, sua voz se torna mais frenética e atemorizada.
The tulips should be behind bars like dangerous animals;
They are opening like the mouth of some great African cat…
Tulipas deviam estar atrás das grades como feras perigosas
Elas se abrem como a boca de um grande felino africano.
Os últimos versos do poema adquirem um rumo mais depressivo em que é possível admitir a fragmentação:
The water I taste is warm and salt, like the sea,
And comes from a country far away as health.
A água que provo é morna e salgada, como o mar
E vem de um país distante como a saúde.
Essa dinâmica nos faz lembrar momentos de nossas sessões com pacientes que nos trazem vivências de objetos bizarros. A paciente Sudha que ri durante toda a sessão porque há uma cadeira nova. “Ela nos observa”, fica repetindo. “Sinto que ela nos olha fixamente”. Sudha é incapaz de encontrar palavras para a experiência, mas a cadeira é um objeto interno imperfeito que parece ter sido remendado com pedaços de objetos internos triturados. Como as tulipas, a cadeira impede que o ego desgastado entre em colapso.
3. Falando a partir do abismo
Então, há a poesia pioneira de T. S. Eliot que permanece imersa na vivência de um colapso em que vozes alucinatórias se multiplicam sem a mínima coerência. Na verdade, podemos ler
A Terra Inútil[
The Waste Land] como descrição de fragmentação na maneira pela qual vozes desconexas se seguem em ordem aleatória a um colapso psicótico:
You gave me hyacinths first a year ago;
“They called me the hyacinth girl.”
—Yet when we came back, late, from the Hyacinth garden,
Your arms full, and your hair wet, I could not
Speak, and my eyes failed, I was neither
Living nor dead, and I knew nothing…
"Há um ano me deste jacintos pela primeira vez, [3]
Passaram a chamar-me a moça dos jacintos.
No entanto, quando voltamos, tão tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços carregados, molhados os teus cabelos, eu não podia
Falar, meus olhos se toldaram, eu não estava
Vivo nem morto, sem saber de nada.
Ou a vivência de desrealização.
Unreal City
Under the brown fog of a winter dawn...
Cidade fantasma
Sob o fulvo nevoeiro de uma aurora de inverno...
O colapso da linguagem reflete a ruína interior:
Twit twit twit
Jug jug jug jug jug jug
So rudely forc’d
Tereu
Tiu Tiu Tiu
Diag diag diag diag diag
Tão rudemente violada
Tereu
Isso realmente se explicita em:
On Margate Sands
I can connect
Nothing with nothing
Na praia de Margate
Não posso juntar
Coisa com coisa
O poema pode ser lido como um mapa de relações estéreis com objetos internos estilhaçados cujas vozes apenas amplificam a fragmentação, o narrador está no espaço de um colapso. Ele encarna a desconexão e o colapso em lugar de descrevê-lo a partir da memória. A maioria de nós consegue recordar pacientes que sussurram de forma incoerente para nós, incapazes de alivanhar em palavras a ruína que marca seu mundo interno. A incoerência de objetos internos dissonantes que parecem piscar e adquirir vida de modo intermitente como uma farsa de presenças reais.
Conclusão
Do equívoco de Mamon ao equilíbrio de Dickinson, a batalha fracassada contra a psicose em Plath até a capitulação em Eliot, podemos ouvir diferentes relações com os estados de colapso. Em momentos diferentes, podemos ouvir essas tonalidades variadas quando, como o Super-Homem, alguém alça voo em delírios, em outros momentos observa a loucura com desapego irônico, como se fosse outra pessoa ou, então, lutando contra ela, ou a tendo colocado dentro de outra coisa e, finalmente, os momentos em que todo contato parece rompido e as vozes permanecem alucinatórias.
Referências
Alvarez, A. (2010). Levels of analytic work and levels of pathology: The work of calibration.
Int. J. Psycho-Anal., 91:4. 859-878.
Bion, W.R. (1957). Differentiation of the Psychotic from the Non-Psychotic Personalities.
Int. J. Psycho-Anal., 38:266-275.
Dickinson, E. (1970).
The Complete Poems of Emily Dickinson. New Delhi: Kalyani.
Eliot, T.S. (1963).
Collected Poems. London: Faber.
Freud, S. (1918). From the History of an Infantile Neurosis. SE XVII.
Milton, J.
Complete Poems. Harvard Classics: 1909–14.
Plath, S. (1960). “Tulips”.
http://www.poetryfoundation.org/poem/178974 [Accessed 6 Aug. 2015].
Winnicott, D.W. (1974). Fear of Breakdown. Int. R. Psycho-Anal., 1:103-107.
1 NdT: Tradução livre de todos os poemas de Emily Dickinson..
2 NdT:Tradução do poema Tulipas de Silvia Plath de Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo em ARIEL Editora Verus, 2007)