A crise climática e o corona-vírus

Delaram Habibi-Kohlen
 

A pandemia e a mudança climática são crises que nos conscientizam sobre nossas inevitáveis dependências: a existente entre nós, bem como das cadeias de suprimentos, da produção e de valores da moeda.

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Atualmente, a comparação e a associação do corona-vírus com as mudanças climáticas tornaram-se algo frequente.

Ambas as crises poderiam nos conscientizar de dependências que temos de certas situações das quais não podemos prescindir: a dependência uns dos outros, a dependência global de cadeias de suprimentos, de processos de produção e do valor das diferentes moedas. No entanto, o corona-vírus está sendo muito mais rápido do que a catástrofe climática em nos conscientizar de tudo isso. Agora que o lockdown nos levou a uma percepção real da paralização, a pandemia nos permite notar a onipresente aceleração em nossa vida: não sentimos mais a agitação e temos mais oportunidade para pensar e nos confrontar com a seguinte pergunta: ‘Para o quê estou no mundo?’ Temos ouvido falar de diferentes histórias, como aquela da lagoa de Veneza, que agora está limpa e para a qual os peixes estão retornando, ou outra, sobre o número de aves canoras que volta a crescer na Europa. Isso traz esperança a um mundo antes dominado pela resignação. Ao mesmo tempo, o aumento do desemprego e da pobreza, que está sendo impulsionado pela pandemia, nos mostra que um ideal romântico sem novos conceitos nos levará à destruição e a retrocessos e, provavelmente, ao retorno a antigos métodos e objetivos, assim que a paralisação terminar. Novos conceitos significariam, portanto, soluções ‘mais ecológicas’ e sustentáveis que reduzissem o desperdício de recursos.

Não é essa uma tarefa da psicanálise? Poderia se argumentar que estamos à beira de uma catástrofe que nós mesmos vamos experimentar, algo que não poderíamos imaginar há uma década: o derretimento do permafrost, que leva a emissões de metano e que causam um aumento exponencial do aquecimento global, incêndios florestais causados por calor em uma extensão ainda desconhecida, ondas de calor que agora surgem, verão após verão, e milhões de árvores moribundas.

A psicanálise nos ensina que somos muito bons em negar. Nesse sentido, sempre podemos atribuir a culpa pelo corona-vírus e pelas mudanças climáticas aos outros (políticos, atores econômicos, nossos vizinhos que voam de avião e se divertem mais do que nós). A negação é um mecanismo bastante estável, pois se utiliza de um pequeno grão de verdade, atrás do qual podemos nos esconder. Ela se torna, porém, menos estável, na medida em que o corona-vírus nos ensina que aquilo que parecia ser certo e garantido eternamente, assim como nossa economia, nosso estilo de vida e nossa crença segura no futuro – tudo isso pode ser esmagado e destroçado em poucas de semanas.

Essa situação está causando angústia, o que é uma reação normal.

A psicanálise pode nos ajudar a manter o equilíbrio entre um medo realista e esperanças não ilusórias para o futuro:

Sabemos que, quando a angústia se torna excessiva, passamos a adotar um pensamento fundamentalista, fato que podemos observar em muitos países hoje.

Klein (1946) descreveu um mecanismo de importância vital, a cisão, que ajuda o bebê a separar o bem do mal para que o mal não destrua o bem. Stokoe (2019) vê nesse modo de sobrevivência normal do bebê um estado de cisão, no qual todos recaímos em caso de perigo. Nesse estado não queremos ‘conhecer’ nada, no sentido de um pensamento maduro. É um estado de mente fundamentalista, no qual a curiosidade se extingue e que é dominado pelos dois polos de amor e de ódio. Stokoe descreve esse estado mental como primitivo e não adulto, determinado por intolerância ao conhecimento e pelo desejo de uma certeza imediata.

Refugiamo-nos no consumo para escapar da dor e do medo durante a propagação da pandemia, a cada incêndio florestal, em todos os verões que fazem com que os lençóis freáticos subterrâneos afundem ainda mais, em cada morte adicional de recifes de coral, a cada espécie animal que está se extinguindo. O desmatamento das florestas tropicais leva a uma convergência de espécies. O consumo de animais, que no passado não eram considerados comestíveis, leva à transgressão das barreiras entre as espécies e a pandemias, e, a partir da nossa própria experiência, precisamos temer que elas farão parte do nosso futuro. A [o surto da] doença da vaca louca foi causada[o] pelo fornecimento de alimento [originário de gado doente] de forma canibalística a bezerros: os interesses financeiros transpassam todas os limites, que antes faziam sentido e que já não são mais respeitados, quando o princípio norteador da sociedade passa a ser o atravessamento de todas as fronteiras e a realização de tudo o que é possível.

A disponibilidade imediata também se encaixa aqui: as perguntas de Fromm sobre ‘ter’ ao invés de ‘ser’ têm uma atualidade inquietante. Na concepção do ‘ter’, a liberdade é onipotentemente equiparada à falta de limites e ao direito de ter os desejos atendidos, que é idealizado.

Essa crescente interpenetração de atividades humanas e bens de consumo se torna tão difundida, tão natural, que nem a enxergamos mais – e ali onde a ideologia coincide com aquilo que tomamos como ‘o mundo exatamente como ele é’, temos a ideologia na sua forma mais pura e mais mortífera. Há uma história bem conhecida de dois peixes pequenos nadando na água em um agradável dia de julho. No caminho, eles encontram outro peixe maior que nada na direção oposta. ‘Um bom dia para estar na água, meninos’, ele diz, enquanto passa nadando. Alguns metros adiante, um dos peixes pequenos se vira para o outro e diz: ‘Que diabos é água?’ (Bell, 2019, p.8ff)

Quando vivemos tudo isso como sendo absolutamente natural – tanto um mundo dividido em rico e pobre, saudável e doente, jovem e velho, quanto nosso papel no mundo, que se vê reduzido a de mero consumidor dependente de combustíveis fósseis – então romper com estruturas de pensamento às quais estamos habituados torna-se algo difícil.

Mas o corona-vírus nos ensina a respeito de reparação: renunciar àquilo que no passado era considerado necessário de repente se tornou uma opção para o futuro como, por exemplo, realizar conferências através do zoom para evitar viagens aéreas ou de carro. A solidariedade experimentada no período do corona-vírus dentro do próprio país e, em parte também, entre países enviando entregas de ajuda, demonstrou uma nova forma de pensamento a respeito do engajamento político.

A psicanálise tem muito a fazer nessa situação: podemos trabalhar cientificamente em nossos próprios institutos abordando temas como cisões e ameaças à democracia, compreender como funcionam os processos grupais, bem como publicar nossos resultados. Podemos disponibilizar nosso conhecimento especializado a políticos e jornalistas. Podemos repensar com o quê podemos contribuir para a sociedade e a cultura. Talvez tenhamos muito mais a contribuir, do que pensamos inicialmente.

Delaram Habibi-Kohlen para o Comitê de Mudanças Climáticas da IPA

Referências 
Bell, D. (2019). Neoliberalism is bad for your mental health [O neoliberalismo é ruim para a saúde mental]. In Morgan, D. (2019). The Unconscious in Social and Political Life [O Inconsciente na Vida Social e Política] Oxfordshire: Phoenix Publishing House, pp. 79-102.
Fromm, E. (1980). Haben oder Sein [Ter ou Ser]. München: dtv.
Stokoe, P. (2019): Where have all the adults gone? [Para onde foram todos os adultos?]. In Morgan, D. (2019). The Unconscious in Social and Political Life [O Inconsciente na Vida Social e Política].Oxfordshire: Phoenix Publishing House, pp. 1-26.

Tradução: Elsa Vera Kunze Post Susemihl     

 

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