Um olhar psicanalítico a partir das Fake News

Dr. José Carlos Calich
 

Se não temos como buscar a verdade, todas as hipóteses, na mentalidade atual, são consideradas de igual valor e abrangência, com um significante poder de confundir e destruir conceitos e estruturas.

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Fake News é expressão recente que nomeia e explicita a ideia de ‘notícia falsa’. O fenômeno sempre existiu, mas, após a I Guerra Mundial, com o avanço da comunicação de massa e as estratégias de marketing ganhou volume, relevância social, financeira e política tendo repercussões em todas as áreas da cultura. A notícia falsa é criada e difundida com a intenção de enganar seu receptor, alterando sua construção da percepção da realidade e favorecendo a concepção de uma neorealidade com um elemento forte de manipulação. Os ganhos do emissor são variados, desde uma satisfação narcísica até ganhos financeiros ou políticos relevantes.

Os expressivos desenvolvimentos da comunicação no século XXI, do aprofundamento das estratégias de marketing e dos avanços tecnológicos, com os novos recursos de mídia, plataformas sociais (ou, também ‘antissociais’), velocidade, o descentramento da origem da informação e uma alteração na cultura conjugaram-se na explosão do fenômeno ao redor do mundo. 

Sua extensa propagação por indivíduos, grupos, instituições, governos e a utilização de robôs, algoritmos e outros instrumentos para sua criação e difusão tornam impossível, no momento, avaliar o número ou a proporção difundida a cada minuto com relação a notícias de fontes fidedignas e fundamentadas. Porém, dados significativos foram publicados na Revista Science, por um grupo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 2018 (Vosoughi et. al, 2018), constatando que a notícia falsa se propaga significativamente para mais longe, de forma mais rápida, sendo mais penetrante e mais replicada do que todas as outras categorias de informação, independente do fato de terem inicialmente sido propagadas por robôs. Segundo os pesquisadores, esse dado implica que notícias falsas se espalham mais do que as fundamentadas porque humanos, e não robôs, são mais propensos a espalhá-las. 

O fenômeno ‘Fake News’ tem como base conceitual o de ‘pós-verdade’. Uma estrutura linguística que sempre existiu ao longo da história, mas que foi nominada, conforme o Dicionário Oxford pela frequência crescente de sua identificação, em 1992. Em 2016, foi escolhida como ‘palavra do ano’, pelo mesmo Dicionário, que a define como ‘enunciados que produzem significados sem substrato objetivo, que se impõem pelo apelo emocional, pelo poder de convencimento ou pela autoridade ou credibilidade de quem os formula’. 

Nenhum fenômeno de comunicação desta magnitude e com essas características seria possível não fosse uma receptividade humana específica a suas propriedades no contexto individual ou coletivo. Conhecemos bem as personalidades adesivas, as com afinidades pelo dramático e pelo catastrófico, pessoas que são dominadas por ressentimentos ou com conflitos fraternos, assim como as patologias do espectro narcisista que têm, nessa mescla, uma tendência a atacar de várias formas à realidade e ao outro humano e que, individualmente, penso que colaborem ao fenômeno que estamos enfocando.  Entretanto, sua magnitude, constância e sua inserção em um conjunto de manifestações do ataque à realidade e à desconsideração do outro humano, permite a conjectura de que estejamos falando de ‘Fake News’ como um sintoma da mentalidade grupal contemporânea. 

Estamos possivelmente falando de algo da cultura e sua ação sobre o psiquismo individual. Utilizarei do modelo de Jean Laplanche (Laplanche,1987 [1992], 2003, 2007 [2015]), que me parece bastante integrador entre estas áreas e com possibilidades de uma elevada heurística para a conjectura psicanalítica em questão.
Neste modelo, a criação de significados na mente humana, precursores da simbolização e constituintes do psiquismo e, com esse, da noção de ‘si mesmo’ (noção de Eu), utiliza os mitos e símbolos culturais como auxiliares no processo de sua construção (metabolização/tradução). Como auxiliares, os mitos, símbolos e sua interação podem facilitar, dificultar ou impedir o processo de construção do psiquismo. Assim, mitos que tenham elementos não saturados, em movimento, com espaço para o trabalho de metabolização/tradução serão estruturantes do psiquismo, enquanto mitos saturados tendem a ser tóxicos e vão dificultar ou impedir este processo (Calich, 2019). O modelo de Laplanche com relação ao mito-simbólico permite que tenhamos um detalhamento psicanalítico da interação entre a cultura e o psiquismo individual, indo além da ideia de que a cultura ‘impõe’ padrões sociológicos ao indivíduo. Se o indivíduo tiver seu mundo psíquico em expansão e complexificação de significados singulares, com predomínio de mitos estruturantes, progressivamente o conteúdo de um dos mitos será transformado e integrado à sua personalidade (Calich, 2019, 2021).

Quero então destacar dois constituintes de nosso mito contemporâneo: a pós-verdade (‘Fake News’) e a fantasia de liberdade absoluta (liberdade sem limites). Para esclarecer o contexto desta última e sua importância faço um breve resumo histórico, baseado em trabalho anterior (Calich, 2021). No princípio do século XX, ocorre uma relevante revolução epistemológica, quando novos vieses de observação determinaram a perda da universalidade das teorias, com a importância crescente da individualidade, da subjetividade, da participação do observador na experiência, da intersubjetividade, da complexidade, da interpretação como instrumento de apreensão da realidade, da intuição, e, como já dito, o ‘fim das certezas’ (Prigogine, 1996), que alteraram significativamente a visão de mundo de grande parte dos pensadores nos diversos ramos do saber e da qual Freud foi, um dos precursores, passaram a influir a mentalidade desde então.

O novo mito criado incluía o elemento de que a simplicidade do mundo nos havia sido subtraída, que a noção de certezas e mesmo de verdades havia desaparecido e que, portanto, a ilusão de segurança com as estruturas históricas nos estava negada. 

Essa nova configuração cultural nos remete a um novo e significativo desamparo. Se a cultura, como dizia Freud em 1930 (Freud, 1930 [1996]), era um parco modulador de nossa destrutividade e mantinha o ‘mal-estar’ em um equilíbrio instável, com uma necessidade continuada de gestão do conflito indivíduo/coletivo, a partir do terço final do século XX, essa ‘conversação’ ganha progressivamente maior dificuldade, com redução ainda maior de seu papel protetor. A perda de segurança nas estruturas históricas (cito os exemplos do crescente fracasso das instituições religiosas tradicionais e o das metanarrativas como verdades universais) incentiva a individualidade, os ‘tribalismos’ sociais contemporâneos [1] (Maffesoli, 1995), a polarização de ideias e uma alteração nas configurações de poder e dominação. Mesmo os Estados/Nação começam a perder poder para o ‘mercado’ e para as novas construções de verdade, diluindo a noção de controle da violência, alterando o ‘mal-estar na civilização’, pelo aumento da insegurança e incerteza. A nova configuração social e cultural oferece uma ainda menor proteção à destrutividade individual e coletiva, favorecendo, portanto, os recursos ao narcisismo.   

A hipertecnologia auxiliou a alterar o equilíbrio entre prazer e realidade, favorecendo drasticamente a ilusão, a adição ao mito do prazer ilimitado e à onipotência. A ideia de que dominamos completamente a natureza, podendo modificar tudo, desde a genética até, supostamente, nossos sofrimentos psíquicos e físicos de qualquer ordem começa a predominar e entrar em conflito com o mito do progresso solidário e sustentável.  O fácil, rápido, barato e o prazeroso, passaram a ocupar a mentalidade dominante associando-se à evolução do conhecimento que acompanha a hipertecnologia. 

Destaco o ensaio reflexivo sobre a pós-modernidade de Jean-Françoise Lyotard (Lyotard, 1979[1986]) envolvendo a relativização radical do conceito de verdade. Lyotard desenvolve a ideia de que a perda dos macrosistemas explicativos (aí incluídos o Marxismo e a Psicanálise) tidos como capazes de revelar universalmente a verdade da condição humana, coloca o mundo na pós-modernidade. Para este autor, esta se caracteriza pelo surgimento de uma sociedade pós-industrial, entendida como uma gigantesca rede de jogos linguísticos, na qual a informação se tornara a mais importante fonte de poder, dominação e força econômica.
Fredric Jameson (1991 [2013]) expandindo as ideias de Lyotard introduz o conceito de ‘crise de representação’, onde:

1.         Se os fatos são incognoscíveis, sua interpretação é mais relevante do que eles. 
2.         E se não há critérios para validar as interpretações, todas podem ser verdadeiras.
3.         Portanto, vale mais aquela que convencer o interlocutor. 

As reflexões de Lyotard e Jameson antecipam o conceito de pós-verdade e seu instrumento, as ‘Fake News’. Os atuais meios de comunicação social têm o predicado de reunir grupos (tribos) que em outras circunstâncias jamais teriam a oportunidade de fazer. Suicidas, pedófilos, redes terroristas internacionais, automutiladores, criminosos em geral, todos os grupos interessados em poder passaram a proclamar, difundir e impor as ‘suas verdades’ e contrapor às ‘verdades’ que estruturaram o mundo até então. A onda de verdades de ocasião, sem fundamentos reconhecíveis, impostos pela força do convencimento, pelas novas organizações do poder, pelo favorecimento da ilusão de prazer ilimitado e pela nova estrutura de fragmentação ‘tribal’ cria o mundo da pós-verdade.

Se não temos como buscar a verdade, todas as hipóteses, na mentalidade atual, são consideradas de igual valor e abrangência, com um significante poder de confundir e destruir conceitos e estruturas. A ideia de que ‘esta é a minha verdade’ começa a se impor, turbinada pelo poder de difusão e convencimento ilimitado determinados por toda a força da nova comunicação de massa. A partir desta nova força, posso impor ‘minha verdade’. A opinião sobre temas complexos passa a ser ‘livre’ e ‘cada um tem o direito de opinar’, independente da absorção do número de variáveis que a compõem e da relação entre elas. É o que tenho nominado como ‘pornografia da opinião’ (Calich, 2003), por sua relação direta com o prazer de descarga, seu valor excitatório, desvinculação com a tessitura psíquica e, portanto, da perda da criação de significados.

Ainda que a interação entre mitos possa fazer com que uma parcela da população não esteja dominada por essa nova mentalidade, a tendência, influenciada pela sedução do prazer ilimitado e pela desmentida do psiquismo, é a de seu predomínio. O fenômeno passa a valer para todas as relações. Em meu entendimento, conduzem a liberações da violência individual e coletiva que vão contra o ordenamento social (e, em sua forma mais radicalizada contra qualquer ‘regulador’), em oposição ao aparente privilégio que vivemos em relação a outros momentos da história. O novo desamparo, a ilusão de prazer ilimitado, de poder ilimitado e a narrativa pós-verdade conduzem à cultura da desconsideração ao outro, ao divórcio do corporal e do si mesmo: a cultura do narcisismo.

A ideia de que seremos imortais, sem sofrimentos ou dores, nem aqueles do crescimento e da maturação, não faremos mais esforços psíquicos para influenciar em nosso destino, nossos corpos e mentes não serão mais limitadores de nosso prazer e que tudo dependerá de nossa vontade e de nosso poder de imposição. Nesta nova mentalidade libertária estaremos livres de todas nossas incompletudes. O corpo representacional é desmentido e mesmo forcluído, assim como o psiquismo.

O mundo criado por essa mentalidade é o da pseudointimidade (Calich, 2017) onde a relação íntima com o objeto é substituída por seu simulacro, suas semelhanças fenomenológicas: pactos sociais, adjacência, segredo, sexo etc.

Como toda estrutura simbólica do mito, a linguagem e o discurso são modificados para expressá-lo. Além disso, há uma mudança na relação do sujeito com sua fala. Os discursos, muitas vezes, não são tomados como algo que abre uma reflexão, tendendo a refletir o discurso único, favorecendo as radicalizações. Muitos pacientes não têm perguntas sobre si mesmos, mas respostas adaptadas ao discurso e às categorias sociais atuais sem curiosidade genuína. Sem consciência, a busca pela liberdade absoluta coloca as pessoas em uma relação inversa, de intensa submissão, incluindo determinadas práticas e pensamentos psicanalíticos atuais.  

Um novo ‘mal-estar da cultura’ inclui a tensão entre o quanto o indivíduo, com sua hiperindividualidade deve renunciar para integrar-se ao mundo e o quanto a sociedade deve conceder às particularidades e idiossincrasias de cada hiperindividualidade, sem desintegrar-se. Um mundo de pactos narcísicos, conluios sociais, popularidade midiática, de um ‘eu-sem-eu’ e de uma ‘ética-sem-ética’.

Com a estrutura ‘tribal contemporânea’, a ilusão de prazer ilimitado e a lógica da dominação deslocada e diluída, atribuída ao indivíduo e a grupos fragmentados cria-se um número crescente de novas categorias de exclusão. O nível de intolerância e preconceito entre grupos aumenta, assim como a violência entre eles. Porém, na mesma lógica recém descrita, o mito-simbólico criado a partir da oposição incluídos/excluídos cria também o ‘fetiche de prestígio’ e o ‘discurso do escorraçado’ (Calich, 2021). Os primeiros naturalizam a exclusão, a humilhação e o maltrato (por exemplo, o fenômeno do ‘cancelamento’ nos grupos e redes sociais, profissionais e mesmo familiares) e o segundo reúne-se em legiões de ressentidos e injustiçados porque se sentem privados (muitas vezes o são em outras áreas) de uma ilusória completude atribuída ao grupo do qual se sentem privados. Estes grupos tendem, no presente, a naturalizar indiscriminadamente todas as relações, sobretudo, aquelas que estão embebidas de desigualdades e de desconexões sociais. Como todo ressentido e injustiçado, utilizam a narrativa de que o mundo lhes deve e têm o ‘direito’ de exigir uma reparação, ainda que de maneiras cada vez mais violentas, aumentando o ‘caldo’ da destrutividade. 

Além disso, nestas novas estruturas narcísicas de dominação e seus discursos totalizantes, há uma tendência a politizar todas as formas de relação humana e a naturalizar as que estão albergadas em seus discursos e a demonizar aquelas que fogem a estes. Mesmo em argumentos a favor da pluralidade e à diversidade, as narrativas tendem a ser ‘unicistas’ e excludentes.

A população submetida a um ‘excesso de informação’ pela sobrecarga dos meios de comunicação e redes sociais, pelo fenômeno da pós-verdade e pela exposição à complexidade tem dificuldades de ter referências, inclusive referências identitárias capazes de manter um nível razoável de segurança, apoio de estruturas históricas e noção de continuidade. Esta passa ser mais uma função da repetição do que a construção de uma temporalidade psíquica com expectativa de futuro.

A única força capaz de se contrapor à preponderância destes mitos não estruturantes é a recuperação ou a primeira instalação do investimento libidinal com poder de ligação. É nosso dever como psicanalistas e, a meu ver, nossa maior contribuição possível à sociedade contemporânea trazer o tema à discussão e auxiliar reflexivamente na árdua busca de soluções.
 
[1] Maffesoli afirma que a cultura de massa se desintegrou e que hoje a existência social é conduzida por agrupamentos tribais fragmentados, organizados em torno dos slogans, nomes de marca e frases de efeito da cultura do marketing.

Referências
Calich, J.C. (2003). As assim chamadas patologias atuais. Trabalho apresentado à Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.
Calich, J.C. (2017). How do we understand intimacy from an intrapsychic model. Panel, IPAC 2017. Buenos Aires.
Calich, J.C. (2019). A atividade tradutiva da Teoria da Sedução Generalizada de Jean Laplanche. Trabalho apresentado à Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.
Calich, J.C. (2021). A Arquitetura da Dominação. Revista de Psicanálise da SPPA. v. 28 n. 1 (2021): O novo mal-estar na civilização: Disrupções.
Freud, S. (1930 [1929]). O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas, v.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.   
Jameson, F. (1991) Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Durham: Duke University Press Books. 2013.
Laplanche, J. (1987). Novos Fundamentos para a Psicanálise. São Paulo. Editora 70. 1987. (Retraduzido pela Martins Fontes Editora. São Paulo. 1992)
Laplanche, J. (2003). Três acepções da palavra inconsciente. Revista de Psicanálise da SPPA. Vol X. Nº3. 2003.
Laplanche, J. (2007). Sexual. Porto Alegre: Editora Dublinense. 2015.
Lyotard, J.F. (1979). A condição pós-moderna. São Paulo. José Olympio; 1986.
Maffesoli, M. (1995). The Time of the Tribes: The Decline of Individualism in Mass Society. London: SAGE Publications Ltd.,1995.
Prigogine, I. (1996). O fim das certezas. São Paulo: UNESP, 1996.
Vosoughi, S., Roy, D. & Aral, S. (2018). The spread of true and false news online. Science. 2018 Mar 9; 359(6380):1146-1151. 

Imagem: Dirty White Trash (With Gulls) de 1998. Tim Noble e Sue Webster 
 

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