O sujeito da alteridade, o sujeito como alteridade

Dr. Eyal Rozmarin
 

A psicanálise é uma teoria acerca das relações entre a consciência humana e o que lhe escapa, o que é inconsciente, o que é outro (estranho) para ela.

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Le pour-soi est ce qu'il n'est pas, et n'est pas ce qu'il est.
[A consciência (para si) é o que ela não é, e não é o que ela é.]

Jean-Paul Sartre, L’Etre et le Néant. 

O notável filósofo francês, Emmanuel Levinas, exprimiu o paradoxo fundamental da condição humana como: “a subjetividade é estruturada como o outro no semelhante” (Levinas, 1981, p. 25). A psicanálise fundamenta-se em premissa similar, de que em cada um de nós existem questões e forças que são outras para o self consciente e pensante. Essa alteridade no/do self é concebida em diferentes estruturas analíticas de maneiras diversas. Freud, apesar de não usar esse tipo de linguagem, começou suas ideias com o enigma das forças fora do controle do sujeito que invadiam sua experiência. O sintoma por definição é outro para o self consciente. É possível acrescentar que tanto a noção de pulsão quanto a de superego atestam a presença de forças estrangeiras, transubjetivas no “Eu”; biológicas no caso da pulsão, sociais no caso do superego. Lacan (2006), ao afirmar que a subjetividade é criada pelo discurso do outro, confere eco à concepção de Levinas. Laplanche (1999) ao afirmar que o inconsciente se forma pelo desejo do outro está em terreno semelhante.

Mas, tudo isso é verdadeiro para a psicanálise em geral. Ao mesmo tempo em que a psicanálise permanece como teoria das relações entre a consciência humana e o que lhe escapa, o que permanece de forma dialética, paradoxal, conflituosa ou definitivamente inconsciente e, por conseguinte, outro para ela, a psicanálise também sustenta que a subjetividade se estrutura como alteridade no semelhante. Isso acrescenta à proposição de Levinas algumas ideias importantes sobre a dinâmica dessa estrutura complexa e frágil.

Essa alteridade que contém e está contida em cada um de nós, na medida em que “cada um de nós” é de fato uma unidade separada e, na medida em que se pode considerar que o outro está “em” nós em qualquer sentido inteligível – essa alteridade é quase tudo (Rozmarin, 2007b). Não há muito para cada um de nós, exceto por um ponto de referência autossensível inconstante, um corpo rebelde e um banco volátil de memórias. Ao considerarmos que, de fato, nossas memórias são traiçoeiras, nossos corpos tirânicos e nossa autoconsciência instável, poderíamos nos perguntar qual é exatamente a identidade que está implicada na noção de self. O que é isso exatamente, a respeito de cada um de nós, que se sente igual a si mesmo? Podemos fazer essa pergunta e, no entanto, a maioria de nós tem um senso de identidade e uma experiência em certa medida contínua de ser.

Freud tentou captar esse aparente paradoxo no decorrer de toda a sua obra. E ao final retornou ao início (Freud, ....). Ao contrário de Levinas, ele não pôde ou não se interessou em ir além do ser. Talvez devido ao fato de a psicanálise ser uma prática clínica tanto quanto uma teoria da condição humana. E a clínica nos faz exigências intratáveis (Rozmarin, 2007a). Um dos nossos maiores desafios continua sendo a investigação do território entre essas duas tendências da psicanálise, a tendência a ser uma grande teoria do sujeito e para além do sujeito, da coletividade, e a tendência em relação ao outro real e concreto que chega aos nossos consultórios em busca de ajuda.

Com isso em mente, interessei-me pela questão da imigração. Imigração como realidade que envolve nossas vidas e nossas práticas. Imigração como metáfora para algo mais geral, a inquietação, a alteridade e a precariedade que fazem parte da experiência do ser humano. Pensar a realidade e metáfora da imigração desafia nossas teorias e os métodos da nossa prática.

Imigração significa deslocamento, de vida, família, língua e cultura, e necessidade de algumas vezes aprender formas de vida radicalmente novas. A imigração envolve mudanças complexas, às vezes traumáticas, nas relações com equações de poder/conhecimento social, como diria Foucault (....), relações que se traduzem em domínios subjetivos e intersubjetivos, tanto de modo evidente quanto oculto. A imigração está ao nosso redor. Muitos de nós somos imigrantes ou descendentes de imigrantes. A imigração tem sido sempre e continua sendo uma questão humana e política premente em todos os lugares. Há um fluxo constante de pessoas que saem de territórios com distúrbios econômicos e políticos em direção a partes mais ricas e mais estáveis do mundo. As demandas conflitantes para acomodar e mudar, ou recuar e expulsar animam grande parte do discurso político global e geram mudanças políticas preocupantes. Nossas vidas e as vidas de nossos pacientes sofrem profundo impacto. Vivenciamos e encontramos essas realidades e suas traduções em domínios subjetivos e intersubjetivos em todos os lugares.

E, não obstante, muitas vezes subestimamos sua carga, quando não a ignoramos totalmente. Isso ocorre, segundo penso, por duas razões principais. Primeiro, porque com suas noções de vida individual e familiar centradas no sujeito, a psicanálise está mal equipada para tratar de fenômenos sociais mais amplos. Em segundo lugar, porque a psicanálise, há muito tempo, repudia sua própria herança migrante (Jacoby, 1983). 

Assim, a imigração, como a maior parte do que podemos chamar de “o social”, está no inconsciente do inconsciente da psicanálise. Imigração como exemplo dramático dos registros sociopolíticos sempre precários da vida humana. Imigração como símbolo do movimento através de todos os tipos de fronteiras sociais e políticas. Imigração como relação entre o melancólico sem e o desejado dentro, como espectro da alteridade que vem a residir dentro. O próprio Édipo, esquecemos, era um exilado. E, nesse sentido, somos todos exilados, dos lugares e épocas das nossas constelações familiares originais, às condições e parentescos que criam nossas vidas adultas. 

Como explicar o terreno psíquico em que todos somos filhos transitórios de pais em retirada, em que nenhum apego pode permanecer seguro? Como compreendermos a chegada da alteridade, em todas as formas de novidade e deslocamento, perturbando o senso de identidade subjetivo-coletivo, despertando suspeitas e o impulso de reprimir ou de expulsar? Como pensarmos nosso trabalho quando o enigma sobre o qual Laplanche (1999) escreve e o trauma que Ferenczi (1949) destaca permeiam a vida muito além do inconsciente da família? Ao percebermos que confusões de língua e mensagens enigmáticas fundamentam as relações entre indivíduos e coletivos, criando o próprio alicerce da vida social (Rozmarin, 2015)?

Pensar em imigração nos permite ver o óbvio desmentido: há um inconsciente social vasto e determinado de forma múltipla nos engolfando. Inconsciente de significação e trauma subjetivo-coletivo dissociado e deslocado, e a presença esmagadora do político e do histórico em nossas vidas. É um inconsciente ao qual temos poucos meios de acesso. Uma vasta alteridade que persiste perturbando qualquer senso de identidade e de igualdade em relação a nós mesmos, passível de administrar. E, no entanto, nossas vidas dependem dessa compreensão. 

Nossas vidas dependem disso porque é necessário compreender o encantamento no encadeamento social, como Adorno (1973) o chamava. A compreensão é uma condição de liberdade. Liberdade diante da opressão social e política ou manipulação rotineira que nos afasta de nós próprios e dos outros. Liberdade diante dos fantasmas da história que nos cercam e podem ser vistos novamente quando liberados de seus tempos e lugares de origem. Liberdade, finalmente, do medo da alteridade, medo incutido em nós pelas maquinações das civilizações que dependem de binários, dentro e fora, igual e outro, para manter seu poder regulador.

Todos estamos aterrorizados pela alteridade. Precisamos apenas olhar para certas correntes do discurso político contemporâneo para perceber que o pânico da alteridade pode chegar a confabulações psicóticas semelhantes às de Schreber. O pânico da alteridade com frequência nos leva a nos agarrarmos de modo desesperado a artefatos enganosos de individualidade. Artefatos criados por qualquer civilização do local que habitamos, com a finalidade de nos pressionar e reprimir em suas versões particulares de subjetividade. Uma das grandes percepções da psicanálise é que nossas subjetividades, por sua própria estrutura, estão destinadas ao eterno conflito e compromisso. Se Freud usasse essa linguagem, ele teria concordado que nosso conflito com a alteridade e nossa necessidade de nos colocarmos separados e contra ela é que impulsiona igualmente nossa civilização e nosso descontentamento. Esse conflito fundamental é onde os limites e desafios da psicanálise continuam a ser encontrados.

Recentemente, um paciente se retirava, era puxado, dizia ele, para um espaço mental em que não sabia o que dizer. Nós dois somos imigrantes, versados em mudar de um país para outro. Sua carreira pode afastá-lo novamente, mas, desta vez, ele teme que não consigamos administrar a distância. Por que? Eu me pergunto. No passado, nos encontrávamos regularmente on-line durante os longos períodos em que ele estava em outro lugar. Sua resposta me surpreende. Ele diz que para se sentir seguro do nosso futuro, ele precisa que eu esteja presente de modo que eu não estivesse tão distante. “Esse tipo de arranjo, em que você está aí fazendo o seu trabalho e eu aqui passando por todos esses problemas, na sua frente, ficou perturbador. Quero trocar de lugar com você. Quero você no divã e eu sentado na sua cadeira”.

Digo a mim mesmo que ele quer saber como é sentir-se sossegado. Mais ainda, ele quer que eu me desestabilize, perca meu lugar seguro na sala e na nossa relação. Para chegar a isso, ele quer que eu imigre do meu continente seguro, para literalmente mudar para o lugar em que ele tem estado, há muito tempo, tentando me alcançar. Sei que esse movimento poderia realmente me fazer compreender melhor algo, sua transitoriedade e incerteza em nosso cenário orquestrado de maneira firme. Seria um modo de aprender muito mais dramático do que o habitual para nós dois. Também assustador. É difícil imaginar o que aconteceria se mudássemos de lugar. Mas também emocionante, pois suspenderia a miríade de superegos que regulamentam nossa relação. 

Penso na afirmação de Ferenczi (1939, em Adorno, 1973, p. 272[1]) que para uma análise atingir seu pleno potencial paciente e analista devem renunciar aos seus superegos. Parece que com esse paciente, chegou esse momento liminar. Renunciar ao superego significaria, nesse entroncamento, renunciar aos nossos direitos territoriais e a tudo que com eles vem desfazer as regras e narrativas de imigração que dirigem nossos status diferentes neste país e nesta sala.

Isso exigiria que eu desistisse da minha cidadania para compreender, ou melhor, lembrar como era viver com um visto de estudante expirado. E ele? No começo, ele costumava comentar a arrumação e os móveis da minha sala. Para ele, isso sinalizava nossas posições diferentes na vida, o fato de que eu conseguira uma situação social que me dificultava compreender a dele. Ele costumava caçoar da casualidade forçada disso tudo. Nós prosseguimos. Hoje, de novo, ele presta atenção nos móveis e na sua arrumação. Mas agora ele quer se apoderar, me desalojar e desestabilizar para fazer eu me sentir outro, diferente do habitual.

Esse eufemismo me deixa relutante. Tenho dificuldades de questionar in vivo as formas de hegemonia e soberania que denominamos de nosso enquadre. Somos levados a acreditar que, para nossa estrutura se conservar, tudo deve permanecer igual. Mas talvez seja hora de considerar que, apesar de toda razão e experiência que sustenta essa premissa, isso é profundamente comprometedor, tanto para nossos pacientes quanto para a psicanálise. Nos mantém sedentários, hierárquicos, protegendo nossos territórios. Isso nos deixa com medo dos outros, da mesma forma que as civilizações sempre temem os que permanecem nômades. Isso nos impede de pensar contra a corrente.

Referências
Adorno, T. (1973). Negative Dialectics (Trans. E. B. Ashton). New York: Continuum. 
Fanon, F. (2008). Black Skin White Masks (Trans. R. Philcox). New York: Grove Press.
Ferenczi, S. (1949). Confusion of Tongues between the Adults and the Child - The Language of Tenderness and of Passion. International Journal of Psychoanalysis, 30:225-230.
Jacoby, R. (1983). The Repression of Psychoanalysis: Otto Fenichel and the Political Freudians. Chicago: The University of Chicago Press.
Lacan, J. (2006). Écrit. New York: A. A Norton.
Laplanche, J. (1999). Interpretation between Determinism and Hermeneutics. In Essays on Otherness. London: Routledge.
Levinas, E. (1998). Otherwise than Being or Beyond Essence (Trans. A. Lingis). Pittsburgh: Duquense University Press.
Rozmarin, E. (2007a). An Other in Psychoanalysis: Emmanuel Levinas’s Critique of Knowledge and Analytic Sense. Contemporary Psychoanalysis, 43:327-360.
Rozmarin, E. (2007b). The Other is Everything. Contemporary Psychoanalysis, 43:386-398.   
Rozmarin, E. (2009). I am Yourself: Subjectivity and the Collective. Psychoanalytic Dialogues, 19:604-616.
Rozmarin, E. (2015). A Second Confusion of Tongues: Ferenczi, Laplanche and Social Life. In A. Harris & S. Kuchuck (eds.), The Legacy of Sandor Ferenczi: From Ghost to Ancestor. New York: Routledge, 264-273.
Rozmarin, E. (2017). Immigration Belonging, and the Tension between Center and Margin in Psychoanalysis. Psychoanalytic Dialogues, 27:470-479.
 
[1] Essa afirmação aparece na edição alemã de Bausteine zur Psychoanalyse de Ferenczi. Curiosamente não foi incluída na tradução inglesa da obra de Ferenczi, de Ernest Jones. Familiarizei-me com ela por meio da Dialética Negativa de Adorno. Por isso, uso a tradução para o inglês incluída nesse livro.

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 
 

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