Separando famílias na fronteira, nos encontramos...

Dr. Francisco Jose González
 

Partindo de sua história de migração, para a história de políticas de imigração que fragmentam famílias, González revela o panorama brutal que contextualiza as ações do atual governo americano.

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(Os norte-americanos) acreditam em um universo de justiça divina, em que a raça humana é culpada de pecado, mas acreditam também em justiça secular, na qual se presume que os seres humanos sejam inocentes. Não se pode ter as duas. Como os norte-americanos tratam isso? Fingem ser eternamente inocentes, não importa quantas vezes percam sua inocência. O problema é que os que juram inocência, acreditam que tudo o que fazem está correto. Nós que acreditamos em nossa culpa, ao menos sabemos que coisas sombrias podemos fazer
de O Simpatizante [The Sympathizer], de Viet Thanh Nguyen (p. 189)

Não consigo lembrar o que me fez recordar, certa manhã, do que guardo na memória como um período tranquilo da minha análise, o medo de tornados que, por um tempo, senti na minha infância. Era um medo, percebi, intimamente ligado a outro: o de comunistas, entidade que eu compreendia menos ainda do que os tornados, mas, que eu sabia, tinha algo a ver com os motivos de a minha família ter abandonado Cuba, alguns anos antes, para vir morar com minha tia Tati, como a chamávamos, e que deixara o país talvez um ano antes, seguindo a rota do seu marido, no casco de um cargueiro que pretensamente transportava bananas, mas que estava apinhado  de outros refugiados em consequência da revolução. Eu temia que os comunistas – seja lá quem fossem esses estranhos seres – me roubassem da minha família, aparentemente como os ventos violentos do furacão no Texas arrancaram telhados de casas da cidade vizinha, sugaram pequenos animais e, até mesmo uma vaca, para o vácuo, de acordo com as histórias.

O medo que senti na sessão de análise se intensificou e, era diferente de outras ansiedades, mais definidas, que eu conhecia. Era uma atmosfera difusa, opressiva e densa. A especificidade do “medo vermelho” da minha infância se dissipara há muito, mas o que visivelmente não se dissolvera – e, apenas nesse momento tornou-se nomeável, embora eu o tivesse vivido muitas vezes antes, quando via guardas de fronteira uniformizados, por mais amistosa que fosse a fronteira internacional – era o medo daquele grande objeto, pouco discutido em nossas teorias: o Estado.

Quando esse sentimento entrou em foco, por debaixo dele, começou a vir à tona outra onda, um oceano terrível de tristeza. Eu vivenciara essa onda repentina, de modo consciente, cerca de meio ano antes, na exibição de um filme cujo título lembro como “Havana Sonata”. Por meio de histórias interligadas, o filme retratava a luta entre os que ficam e os que partem; sem usar quase nenhum diálogo, o filme era uma montagem em camadas de cenas da cidade onde nasci e morei até meu terceiro aniversário. O clímax, me recordo, envolve um homem ambivalente que finalmente decide emigrar, e foi filmado no aeroporto de Havana que relembro com clareza devido aos retornos para visitas. Lá, os viajantes que partem estão separados dos que ficam por uma divisória de vidro. Ainda que seja transparente, o vidro tingido de verde é um cristalino abismo para mim. Na medida em que as imagens se acumulavam no filme, senti a mesma onda crescente de tristeza esmagadora que, naquele momento sentia na minha análise. Na sessão do filme, abandonei meus amigos – de repente, sem explicação – literalmente corri para o meu carro e, no encerramento escuro do estacionamento, tive um colapso repentino e incontrolável. Nesse momento da análise também. Na análise, contudo, acompanhado e com tempo, pude finalmente narrar o colapso que ocorrera mais de meio século antes, ao menino pequeno que se separara da sua amada ama-seca, Laude. 

A minha história é pequena, meus pais cruzaram a divisória de vidro comigo e, contiveram a ruptura. Laude era amada, mas não era minha mãe. 

E, mesmo assim, aquele vidro tingido de verde cortou algo, indelevelmente, na minha psique, que ainda me marca. Talvez seja uma lembrança encobridora, uma condensação da complexidade ondeante do que foi o trauma de abandonar Cuba, para mim e para minha família. 

Então, o que dizer das crianças que não tem essa proteção amortecedora, cujos pais são arrancados, que não têm uma ponte acima do vácuo, deixadas no rastro do braço cortante do Estado?

“As fronteiras estão cada vez mais afiadas, como a lâmina de uma guilhotina”, escreve o poeta Patrick Chamoiseau: [1]
 

"Ao redor deles, pessoas que chegam como humanos em relação a outros humanos, cujo único crime é ser humano e pedir ajuda a seus irmãos e irmãs a partir das profundezas de um sofrimento muito humano, deparam-se com sistemas que não sabem mais como reconhecer um ser humano."

A administração Trump começou a pensar na possibilidade de separação de famílias em março de 2017. [2]  Mas o procurador geral Jeff Sessions iniciou essa estratégia efetivamente em maio de 2018, ao anunciar a política de “tolerância zero” de processos criminais para pessoas que tentassem atravessar ilegalmente a fronteira (não importa que busca de asilo não seja crime). Em 9 de junho, mais de 2.300 crianças foram separadas de seus pais. [3 A política em parte foi uma bravata temerária estimulando uma base xenofóbica voraz, em parte um estratagema maquiavélico para fortalecer o Congresso, mas totalmente desprovida de cuidados humanos, descaradamente cruel. Nestas páginas, não há necessidade de documentar o dano que esse tipo de trauma pode causar à mente em desenvolvimento. O clamor público foi alto e rápido. Em junho, uma pesquisa da Quinnipiac mostrou que dois terços do público norte-americano votante discordaram dessa política. [4] Mais uma vez, lutamos para assimilar a barbárie de Estado de Trump. E lamentamos o que havia acontecido com a nação. Já em dezembro de 2017, a senadora Kamala Harris tinha postado em sua página inicial do Facebook o que muitos pensavam: “Em momentos como esses, precisamos olhar no espelho e perguntar: Quem somos nós como país”?

Quem de fato?

O imigrante, o “estrangeiro”, o outro, sempre perturba a identidade supostamente intacta do “nativo”. Olhe por tempo suficiente, nos diz a psicanálise e, inevitavelmente o espelho mostrará que somos estranhos para nós mesmos, revelará sempre o estranho subjacente à ilusão de identidade do self.

Foi apenas uma questão de tempo antes de surgir uma erupção de artigos na imprensa sobre a longa história de separações familiares na política dos Estados Unidos. [5]  A dizimação de famílias negras durante a escravidão, quando as crianças podiam ser vendidas, simples bens, afastadas dos pais, o Estado deliberadamente surdo e cego para quaisquer laços de parentesco. Ou a assimilação forçada de crianças nativas americanas, muitas vezes tiradas de suas famílias, após o Congresso aprovar o Civilization Fund Act, em 1819, que tentou “civilizá-las” de acordo com a fórmula do oficial do exército Richard Pratt: “Mate o índio nele e salve o homem”. [6] Ou, novamente, durante a assim chamada Repatriação Mexicana de 1930, quando, na esteira da Grande Depressão, mexicanos e mexicano-americanos, que moravam nos Estados Unidos (e, na grande maioria, cidadãos) foram pressionados a mudar de “volta” para o México, separando muitas famílias [7] Sem contar os campos de confinamento de japoneses que pode não ter separado famílias de forma sistemática, mas os encarcerou sistematicamente, ecoando o medo da ameaça estrangeira que deve ser segregada para não infectar. [8] Ou – o que vivenciei mais diretamente trabalhando em saúde mental na comunidade – a remoção desproporcional de crianças negras pobres de seus lares por agências de serviço social, sem dúvida trabalhando com as melhores intenções de proteção, mas aprisionadas ocasionalmente no legalismo deformado de um sistema obscurecido por preconceito racial e falta de compreensão cultural [9]

Em resumo, “nós” temos separado famílias, por conveniência política e econômica, já há algum tempo. Menos aberração, e mais proliferação do estranho fruto de uma história perturbadora e dissociada (como tantas coisas que emanaram dessa administração problemática e profundamente perturbadora dos últimos 20 meses), a separação de famílias, na verdade, não é nenhuma novidade.

Consideremos do ponto de vista de uma psicanálise social. Com isso, tenho em vista não só a tensão renovada de uma psicanálise que se recusa a considerar a pessoa sem levar em conta seu contexto social [10] mas também a que pode ler, no sofrimento pessoal privado, os sintomas do mal-estar social. É uma psicanálise que assenta o inconsciente não só na vida reprimida do organismo do sujeito, mas também, de maneira potente, nas histórias estruturais às quais esse indivíduo está literalmente assujeitado, em “patologias de poder” [11] Isso significa ultrapassar a avaliação dos danos causados – talvez para as gerações vindouras – às famílias separadas na fronteira, para a questão espinhosa do que significa para o coletivo norte-americano o fato de que, em nossa história, temos separado famílias repetidamente.

O sangue é mais espesso do que a água, diz o ditado. Mas os laços de parentesco são legitimados pelo Estado (considere-se herança, miscigenação, casamento gay). Se a fronteira demarca de forma pertinente nosso território enquanto povo, o reconhecimento, por parte do Estado, do que constitui um laço familiar inviolável define outro tipo de fronteira. A separação sistemática de famílias como questão de política não tem sido indiscriminada, a guilhotina da fronteira não caiu sobre qualquer tipo de família. É possível ser apenas coincidência que essa história dolorosa seja a história de famílias de escravos negros, de famílias de nativos americanos, mexicanos e asiáticos? [12]  O grito “sangue e terra” da supremacia branca reafirma apenas uma consanguinidade específica e calunia o resto. O fantasma pernicioso que assombra o inconsciente norte-americano não é uma mitologia da brancura familiar? Quem obscurece e procura apagar as tensões de uma história norte-americana realmente enraizada, desde os seus primórdios, em um multiculturalismo profundo que, desde suas origens, sempre foi poliglota e interpenetrado pela miscigenação, que nasceu de imigrantes e, desde sempre foi, em primeiro lugar os Estados Unidos da América, ensopado do sangue dos que não eram brancos? Reivindicar essa história é honrar uma genealogia diferente da brancura mitológica dos Estados Unidos de Leave-It-To-Beaver [13]

Vistas a partir dessa perspectiva, as recentes separações na fronteira não são apenas um horror para as famílias diretamente atingidas, são o retorno do nosso passado dissociado. São um sintoma – o mensageiro doloroso – de como julgamos irrelevantes e inconsequentes alguns laços familiares e, exatamente nessa base, traçamos uma fronteira clara em torno dos laços que consideramos invioláveis, sagrados e inalienáveis em uma fantasia mitológica coletiva de família norte-americana. A psicanálise social nos ajuda a ver isso: a história por trás do sintoma atual e como a dissociação dessa história serve para sustentar uma identidade coletiva específica. Ajuda-nos a ampliar a lente, mas a partir dessa perspectiva mais ampla, há uma enorme complexidade e uma série de perguntas muito difíceis. Devemos considerar nossa relação com a identidade coletiva e com o que trazemos dela dentro de nós, em geral de forma não muito consciente: qual a profundidade e quais são os limites da responsabilidade de se conscientizar e de arcar com o ônus de uma herança coletiva? A psicanálise não nos permitirá a acomodação na idealização nem na calúnia reacionária. Podemos aspirar a uma família global harmoniosa, mas a psicanálise nos obriga a pensar na complexidade do que acontece em qualquer fronteira, inclusive nas organizadas pelo Estado, como a zona angustiante de delimitação entre dentro e fora. Quando ouço os gritos das crianças separadas na fronteira, o pensamento psicanalítico social faz minha perturbação aumentar. Não apenas devido à minha identificação com essas crianças ou à minha compreensão do trauma e de seus efeitos perniciosos ou devido ao sentimento de empatia cultivado, nascido do trabalho diário nessa prática, mas também porque não me permite simplesmente colocar essa prática indefensável aos pés do bruto atualmente no poder.

A psicanálise social nos motiva a agir, bem como a muitos psicanalistas: a aprender a fazer avaliações para asilo, a exprimir protestos profissionais sobre os danos psicológicos das separações familiares, no trabalho com famílias e comunidades atingidas. Mas, como a psicanálise tradicional nos estimula a falar pelo que não é reconhecido ou conhecido, a revelar as dificuldades da história, a avançar para questionar e investigar a rigidez do conhecimento de certezas veementes. Por mais horríveis que tenham sido as recentes separações familiares (e continuam a ser: muitas crianças ainda precisam reunir-se às suas famílias), devemos examinar com profundidade maior, para além das maquinações draconianas da atual administração, para histórias que preferiríamos esquecer.
 
[1] Chamoiseau, P. (2018). Irmãos Migrantes: Declaração de Dignidade Humana de um Poeta [Migrant Brothers: A Poet’s Declaration of Human Dignity]. Yale University Press, p. xiv.
[2] Madrigal, A.C., Junho 19, 2018. “A Criação de uma Crise Moral Online" The Atlantic [The Making of an Online Moral Crisis: The Atlantichttps://www.theatlantic.com/technology/archive/2018/06/the-making-of-a-moral-problem/563114/
[3] Kim, S. M., June 19, 2018. “7 perguntas sobre a política de separação de famílias, respondidas [7 questions about the family-separation policy, answered].” Washington Post. https://www.washingtonpost.com/politics/q-and-a-understanding-the-controversy-over-separating-families-at-the-border/2018/06/19/8a61664a-73fb-11e8-be2f-d40578877b7b_story.html?noredirect=on&utm_term=.822ccc84001b
 [4]  June 18, 2018 – Parem de tirar as crianças [Stop Taking The Kids], 66 Percent Of U.S. Voters Say, Quinnipiac University National Poll Finds. https://poll.qu.edu/national/release-detail?ReleaseID=2550
[5]  Ver por exemplo: Contreras, R. June 20, 2018. “Outros tempos na história em que os Estados Unidos separou famílias [Other times in history when the U.S. separated families].” Chicago Tribune. http://www.chicagotribune.com/news/nationworld/ct-family-separation-history-20180620-story.html
White, B. S., June 25, 2018. “Nossa Longa História de Separação de Famílias [Our Long History of Family Separation].” The Aspen Institute. https://www.aspeninstitute.org/blog-posts/our-long-history-of-family-separation/
Kaur, H., June 24, 2018. “Na verdade, os Estados Unidos têm uma longa história de separação de famílias [Actually, the US has a long history of separating families]. CNN. https://www.cnn.com/2018/06/24/us/us-long-history-of-separating-families-trnd/index.html
[6] Bear, C., May 12, 2008. “Colégios Internos de Índios Americanos Perseguiram Muitos [American Indian Boarding Schools Haunt Many].” NPR. https://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=16516865
[7] Gross, T., September 10, 2015. “America’s Forgotten History Of Mexican-American ‘Repatriation’: Interview with Francisco Balderrama.” Fresh Air. https://www.npr.org/2015/09/10/439114563/americas-forgotten-history-of-mexican-american-repatriation
[8]  Takei, G., June 19, 2018. “’Ao Menos Durante o Confinamento …. Palavras que Pensei Jamais Pronunciar [At Least During the Internment …’ Are Words I Thought I’d Never Utter”. Foreign Policy. https://foreignpolicy.com/2018/06/19/at-least-during-the-internment-are-words-i-thought-id-never-utter-family-separation-children-border
[9]  Desigualdade e Disparidade Racial no Bem-Estar de Crianças [Racial Disproportionality and Disparity in Child Welfare]. November 2016. Child Welfare Information Gateway. https://www.childwelfare.gov/pubPDFs/racial_disproportionality.pdf
[10]  Layton L. (2006). Ataques aos Vínculos [Attacks on Linking]. In: Layton L, Hollander NC, Gutwill S, editores. Psicanálise, Classe e Encontros políticos no Setting Clínico [Psychoanalysis, Class and Politics: Encounters in the Clinical Setting]. New York: Routledge
[11]  Farmer, P. (2004). Patologias de Poder [Pathologies of Power]. Berkeley: Univ. of California Press
[12]  Até mesmo leis de imigração que explicitamente privilegiam laços familiares têm uma história mais complicada na medida em que foram usadas para estabelecer um sistema de cotas que restringiu ou proibiu a imigração de muitas pessoas de cor. Ver Wolgin, PE. Fevereiro 12, 2018. “A Reunificação Familiar é o Alicerce da Política de Imigração dos Estados Unidos [Family Reunification Is the Bedrock of U.S. Immigration Policy,]” Center for American Progress. https://www.americanprogress.org/issues/immigration/news/2018/02/12/446402/family-reunification-bedrock-u-s-immigration-policy/
[13]  NdaT Sitcom da TV norte-americana, de 1957 a 1963 retratando a família norte-americana icônica, pós-guerra, especialmente o filho ingênuo.

Tradução: Tania Mara Zalcberg
 

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