A Europa numa encruzilhada e a crise dos refugiados: solidariedade ou pânico moral

Dr. Kinga Göncz
 

Um cidadão húngaro médio conhece mais OVNIS em sua vida do que imigrantes

0
Comments
291
Read

1) "Um cidadão húngaro médio conhece mais OVNIS[1] em sua vida do que imigrantes"

Este subtítulo refere-se a um dos inúmeros cartazes na "guerra de cartazes" húngara que antecedeu o referendo de outubro de 2016. O cartaz foi afixado por um partido fictício, num tom de gozação, embora seu significado fosse bastante sério, deixando claro que o governo estaria fazendo mau uso da crise migratória, distorcendo a realidade, elevando a ansiedade, a paranoia e a rejeição aos que buscam asilo: o referendo foi proposto pelo governo, convocando a população a "proteger a Hungria dos imigrantes ilegais e impedir o assentamento forçado de estrangeiros ".

A quota da União Europeia (UE) à qual Orban- primeiro ministro da Hungria- se opôs, visava distribuir (e não assentar) dentre seus países aqueles que buscavam asilo (não imigrar ilegalmente), a fim de acelerar a análise de seus pedidos.

O tratamento dado à questão migratória, referendo incluso, claramente serviu aos interesses políticos do partido no poder, que estava perdendo popularidade de maneira dramática devido aos episódios de corrupção, apadrinhamento e insensibilidade social.

Quando, no verão passado, uma onda de refugiados e migrantes atravessou as fronteiras da Hungria, o governo agravou  ainda mais o problema ao forçar a multidão em direção ao centro de Budapeste sem oferecer qualquer informação ou assistência, para em seguida deixá-la seguir em direção à Áustria, caminhando pelas rodovias - era claro que não havia a intenção de permanecerem na Hungria, apenas a de cruzar o país. Civis húngaros, vendo o sofrimento das pessoas, organizaram-se rapidamente providenciando alimentos, abrigo e assistência médica.

Orban, servindo-se desta situação chocante, deu-se conta do seu potencial político e se apresentou como o único capaz de proteger a Hungria (e cada vez mais, a Europa) deste fluxo migratório moderno. Ele ordenou a colocação de uma cerca de arame farpado em volta do país e iniciou o referendo.

O referendo foi divulgado pessoalmente por Orban no mesmo dia em que outra iniciativa de referendo (submetida por um partido de oposição e potencialmente
 
ameaçadora para ele) era impedida por um grupo neonazista de maneira ilegal, com uso de força física.
Na medida em que o partido da situação controlava toda a mídia pública e avançava   cada vez mais no controle dos canais privados de televisão e  dos jornais, começaram  a reforçar a imagem dos migrantes como buscadores de asilo. Os refugiados - chamados de “imigrantes ilegais”- eram descritos como ”terroristas potenciais”, que vão “assediar nossas filhas, tirar nosso trabalho e invadir nosso país”.

A imagem veiculada a cada quinze minutos na televisão pública era a de um afluxo infinito de jovens sem rosto, de pele e cabelos negros, caminhando pelas rodovias. Também era anunciado que outro milhão de pessoas tinha a intenção de segui-los.

Os húngaros não conseguiam mais ver mulheres e crianças sofrendo, apenas uma turba ameaçadora e sem fim que invadia a Europa.

Ao longo dos três meses preparatórios ao referendo, o país todo foi decorado com cartazes enormes convocando a população a votar "não", optando entre a posição de Budapeste (a "correta") e a de Bruxelas (que forçava a Hungria a abrigar essas pessoas “violentas e perigosas”). Também era veiculada a mensagem de que a Hungria estaria, desse modo, preservando a cristandade europeia - através da mensagem subliminar de que até Deus estaria do seu lado, o que legitimaria a abordagem do governo.

O custo da campanha foi três vezes maior do que a média gasta em eleições nacionais, revelando o interesse do governo na questão.

O efeito da campanha foi claramente observado nos resultados do referendo: 98% dos votos “não”, com 40% de comparecimento às urnas.

Mas o efeito real foi a crescente xenofobia - a Hungria é o país que apresenta o índice mais elevado de temor a imigrantes em relação aos outros países da UE, apesar de praticamente nenhum imigrante ou refugiado ter aí permanecido.

2) O uso político do pânico moral

O que vemos à nossa volta é um pânico moral- uma reação que ultrapassa a racionalidade e apela fortemente à nossa compreensão psicanalítica.

Falamos em pânico moral quando ocorre uma reação social "irracional". Quando existe uma situação ambígua, a mídia muitas vezes exerce o papel de lhe atribuir uma forma. Mas o pânico moral pode ser também utilizado estrategicamente pelos políticos, de modo a desviar a atenção de outros problemas, a fim de canalizar ansiedades sociais (Rohloff & Wright, 2010).
 
Apesar de pânicos morais serem episódios de curta duração, seus efeitos são sentidos por longo prazo nos processos sociais.

Pânicos morais acarretam mudanças legais, em geral repressivas. Servem muito mais à mitigação de ansiedades sociais, do que à solução da situação. Mas como o pânico moral é ”irracional”, sua solução também o é.

O tratamento da questão migratória na Hungria preenche todos os critérios de um pânico moral criado estrategicamente pela elite política.

A ansiedade entre os cidadãos húngaros crescia claramente como consequência das mensagens fortes e avassaladoras relativas à ameaça potencial do fluxo migratório.
Quando a incerteza aumenta, as pessoas ficam mais propensas ao uso de mecanismos de defesa primitivos como cisão e projeção de aspectos negativos do self e do objeto.

 A multidão ameaçadora de jovens sem rosto, como eram descritos os migrantes pela mídia, é uma superfície bastante apropriada para projeções. Quando mais intensas as cisões e projeções, mais o “Outro” se torna ameaçador e cada vez mais proteção é necessária.

 A cerca de arame farpado de Orban foi a mais perfeita expressão física desses mecanismos de defesa patológicos: criou uma barreira impermeável entre o “bom” (húngaros protegendo a cristandade) e os “Outros maus” (os migrantes). A cerca não é uma simples proteção, mas demonstra a gravidade do temor: é autorizado matar animais que tentam cruzá-la.

Apenas para ilustrar o caráter cruel e politicamente motivado da reação do governo: ao mesmo tempo  em que o pedido da UE para que acolhessem transitoriamente 2000 asilados era recusado e as fronteiras eram hermeticamente fechadas para os refugiados e migrantes, milhares de autorizações de residência permanente eram vendidas aos que podiam pagar caro, incluindo um bilionário Saudita com um mandato de prisão internacional por financiar organizações terroristas, que agora tinha negócios com a família do primeiro ministro húngaro.

3) O processo civilizatório e o efeito des-civilizante do pânico moral

Norbert Elias em The Civilizing Process (2000) escreve acerca das relações entre mudanças de comportamento de longo prazo e o processo de formação de Estado: no mundo moderno há uma interdependência cada vez maior entre esses fatores devido ao crescimento populacional e ao aumento da divisão de trabalho.

O processo de democratização requer autocontenção e uma reiterada identificação mútua: é esperado que as pessoas se disciplinem, que reprimam seus impulsos (agressividade, desejo sexual), que inibam qualquer expressão declarada de agressividade dirigida aos outros.

Em termos psicanalíticos: através do processo civilizatório, os impulsos reprimidos- sexuais e agressivos- podem transformar-se em elaborações socialmente positivas ou, em momentos de crise real ou intuída, pode ocorrer uma regressão grupal e o emprego de mecanismos de defesa muito primitivos.

A Europa é caracterizada por uma sexualidade reprimida- consequência do processo civilizatório- e tem uma sociedade em envelhecimento.  A multidão infinita de rapazes migrantes e refugiados representa um grupo jovem e dinâmico, uma forte masculinidade, que provoca sentimentos invejosos e ambivalentes frente à superioridade de potência sexual percebida, que expressa os impulsos sexualmente agressivos, proibidos. São ao mesmo tempo representantes do pai e do filho, com seus aspectos destrutivos. Como homens, são ao mesmo tempo, objetos de medo e desejo.

Notícias sobre casos de assédio sexual- divulgados intensamente pela mídia- e as fantasias de estupro relacionadas a eles, mostravam esta ambivalência projetada nos jovens homens (Cohen 2002).
O processo civilizatório não é linear, como diz Norbert Elias- processos des-civilizatórios acontecem de tempos em tempos, sendo que os pânicos morais constituem episódios desta natureza, uma vez que se fundam num grau elevado de ameaça.

Durante o pânico moral há um incremento perceptível de perigo e uma falha evidente do Estado em reduzi-lo. Nos episódios de pânico moral, o comportamento civilizado pode ser afetado e há um afrouxamento do monopólio do Estado sobre os meios de controle da violência.

Um dos exemplos mais simbólicos de processo des-civilizatório foi o comportamento de uma jornalista que falava sobre os refugiados cruzando a fronteira húngara: ela tropeçava nos refugiados e os chutava, inclusive um pai com um bebê no colo. A mídia internacional usou esse vídeo para mostrar as consequências do pânico moral, o ódio incitado contra aqueles que não são mais considerados seres humanos, mas portadores de todos os aspectos maus projetados.

4) A globalização e o crescente nacionalismo reativo - preparando o solo para o pânico moral na Europa

 A Hungria foi o primeiro pais a convocar um referendum  para negar asilo aos refugiados; legitimou também a instalação da cerca de arame farpado ao longo das fronteiras do pais.

O primeiro ministro húngaro foi o primeiro na Europa a reconhecer os refugiados como o grupo mais “adequado” para servir de bode-expiatório, o “melhor alvo” para redirecionar a raiva pela insatisfação com o governo.

Mas a Hungria é apenas o primeiro e o mais visível dentre os países europeus que caminham nesta direção e deste modo é importante discutirmos os aspectos psicológicos deste processo e também compreendermos melhor como evitá-lo em outros lugares.

Olhando a crise dos refugiados da perspectiva europeia, é verdade que os ataques terroristas que mataram civis inocentes, bem como os mais de um milhão de refugiados e migrantes atravessando o continente, dos Balcãs até a Alemanha e os países escandinavos, tem sido um choque para a Europa.

Embora a crise do Oriente Médio remonte há muitos anos, a Europa falhou em reagir adequadamente aos novos desafios (ou mesmo contribuiu para agravar os problemas) até que chegou o momento em que suas consequências atingiram diretamente o continente, na forma da crise dos refugiados, migração em massa e  ataques terroristas, rompendo com o mecanismo de defesa coletivo predominante dos europeus - a negação.
No mundo globalizado os vínculos sociais se enfraquecem em consequência do individualismo e do isolamento; a complexidade vem causando ansiedade e insegurança. Em busca de certezas, as pessoas procuram novas identificações dentro da própria sociedade e se diferenciam mais fortemente dos estrangeiros, que pertencem a outro lugar, os “Outros” ameaçadores.

Movimentos populistas e de extrema direita apresentam programas políticos que evocam o “paraíso perdido”, quando o mundo era simples e seguro. Oferecem a ilusão de que, mantendo os refugiados de fora, o caos da globalização também ficará.

A nova forma de nacionalismo parece oferecer uma nova identificação, coesão e certeza virtual. Mas este novo vínculo entre o indivíduo e a nação, esta crescente coesão tem um preço: o investimento narcísico no Eu ideal.

Vamik Volkan (2014) escreve a este respeito: em tempos de crise as pessoas abandonam suas múltiplas identidades e mecanismos de defesa mais evoluídos e se aglomeram debaixo da “tenda gigante” do seu grupo- unidos através do uso de mecanismos de defesa primitivos como a cisão, a projeção, a externalização, levando à paranoia. Sentem-se mais seguros juntos e procuram um líder forte para prover segurança e certezas. As necessidades inconscientes do líder potencial e as necessidades
inconscientes do grupo maior reforçam-se mutuamente, nutrindo também o narcisismo de ambos os lados.
 
No caso da Hungria, vemos claramente esse processo regressivo grupal e sua interação com as necessidades psicológicas (e políticas) do líder. Orban- o líder- quando incita o temor aos imigrantes, está usando o pânico moral para aumentar a coesão grupal. As pessoas buscam um ”salvador” nessas situações ameaçadoras e ele oferece esta proteção. Este processo – a extensa regressão grupal -  favorece a externalização dos aspectos maus (incluindo os do líder) que são projetados nos “inimigos”- os “migrantes ilegais”, o que abre caminho para o estabelecimento de um laço emocional imperturbável entre o líder e seus seguidores.

5) Como superar este processo grupal regressivo na Europa?
A Europa se orgulha dos seus valores fundamentais de dignidade humana, igualdade,  não discriminação, liberdade religiosa, etc. Estes valores contrastam fortemente com o processo regressivo grupal, que demanda uma clara distinção entre “Nós” e os “Outros”, criando distância e cada vez mais barreiras físicas para proteger nosso Eu ideal e manter a ilusão de segurança. Temos duas maneiras de superar esta controvérsia e os europeus estão bastante divididos em suas escolhas em busca de solução:
- uma alternativa possível – mas muito perigosa, é continuar a desumanização dos refugiados com o intuito de legitimar sua discriminação e a situação de privação de abrigo, alimento e dignidade.  O risco é de que sacrifiquemos nossos valores mais fundamentais abrindo mão de nossa liberdade ao construir cercas, reforçando a regressão grupal na busca de líderes onipotentes, sobre os quais não temos controle e, principalmente, o de abandonarmos a racionalidade para viver em uma realidade distorcida.
- a outra escolha é oferecer uma solidariedade ativa e identificar-se com aqueles que estão fugindo de situações de guerra, fazendo esforços na direção da integração social, (“reintegrar” também nossos maus aspectos do self e objeto) e procurando superar os processos de massa regressivos, tolerar a ambiguidade e a incerteza. Se queremos prevenir o alastramento do pânico moral e das reações “irracionais”, temos que detectá-los e ajudar as pessoas a obter informações, não permitindo a emergência de “salvadores” na forma de líderes onipotentes, nacionalistas e populistas.

Os terroristas também constroem sua política apoiada na incerteza e no medo, na esperança de causar uma reação desproporcional e medidas restritivas, que destruirão aspectos essenciais da nossa cultura: tolerância, liberdade e confiança. Se alguns líderes europeus estão apoiando, inconsciente ou conscientemente, a intenção dos terroristas ao realizarem seus desejos, então, missão cumprida.
É uma responsabilidade compartilhada resistirmos a essa tendência...
 
 
Bibliografia
Cohen, P. (2002). Psychoanalysis and  racism- reading the other scene. In: A Companion to Racial and Ethnic Studies. (Eds. Goldberg, D.T. &Solomos, J.) Wiley- Blackwell. Pp 170-201.
Elias, N. (2000). The Civilizing Process: Sociogenetics and Psychogenetics investigations (Revised Ed.). Oxford: Blackwell
Rohlof,A.& Wright,S. (2010.) Moral panic and social theory: Beyoun the heuristic. Current Sociology, 58.(3),404-419
Volkan,V. (2014). Psychoanalysis, International Relations and Diplomacy. A Sourcebook on Large-Group Psychology. Karnac
 
[1] Objetos voadores não identificados
 

More articles by:
 


Star Rating

12345
Current rating: 5 (3 ratings)

Comments

*You must be logged in with your IPA login to leave a comment.